#0014 Os custos ocultos da automação intelectual
A IA vai produzir tudo e vamos ficar só bebendo água de coco e olhando para o mar?
Há alguns anos, quando eu imaginava como seria o futuro, pensava em robôs interagindo conosco, produzindo nossa comida, nossos carros, nossas roupas, nosso tudo.
Quem hoje vai a uma fila de banco? Os caixas hoje são mais uma necessidade cultural que de fato uma necessidade real. Nós nos organizamos e deixamos um ser humano do outro lado, mesmo que ele não tenha praticamente nenhuma influência no resultado da transação.
E sim, nós imaginávamos que as máquinas fariam isso e muito mais. Mas eu não esperava que minha geração visse essas máquinas substituindo o trabalho intelectual, ou muito menos os artistas visuais, designers. Claro que podemos argumentar que ela não substitui, que quem hoje contrata essas ferramentas não tinha antes condição de contratar um designer ou um artista, e agora, esse pessoal teve um acesso melhorado.
Parece-nos natural que o moço que acordava as pessoas para irem às fábricas fosse substituído pelo despertador. As telefonistas pelo celular. O rádio pela televisão. A televisão pelas redes sociais? E agora as redes socais pelas LLM?
Se você não está muito familiarizado com o termo, Large Language Model é o nome para os modelos de linguagem que agora estão sendo equipados dentro dos programas fazendo automações. Este texto é uma iguaria, um texto 100% humano, fruto de meus estudos, paciência e da minha humanidade. Em contrapartida a internet está inundada de outros textos acelerados por esses modelos.
E não adianta nós fugirmos para as cavernas. Da mesma forma como eu não vou decorar os endereços da minha cidade e só vou andar com GPS, toda a minha produção agora passa por eles. Eles são úteis em tantas atividades, como por exemplo na ajuda de pesquisar o material para este texto.
Também utilizo-os para me ajudarem a centralizar as métricas. Ver os melhores textos, melhorar.
Agora veja o exemplo da IA do iFood, eles têm agentes de IA que resolvem conflitos entre: clientes x entregadores x estabelecimentos.
Por exemplo, suponha que você pediu um trio (hambúrguer, batata frita e refrigerante), e você nota que não chegou a batata frita. Existem algumas possibilidades; talvez o entregador não tenha visto no fundo do baú dele a batata? Pode ser. Ou será que foi o restaurante que não deu a batata ao entregador? E se tiver caído ou estiver atrás da sacola e você recebeu e não viu? Tudo isso pode acontecer. Como resolver?
De quem é a culpa? O modelo irá analisar o histórico, ele já foi treinado com diversas outras ocorrências, e a partir disso vai emitir um parecer, para então, uma LLM atender, seja o cliente, o entregador ou restaurante.
Eles exibem mais de 90% de satisfação neste tipo de atendimento, quase não sendo necessária a intervenção humana.
Boa parte de tudo que já existe hoje, já pode ser automatizado. E nem precisamos de LLM's para isso, já temos tecnologia suficiente, poderíamos ter caixas automático nos mercados. Na verdade este movimento já começou.
O maior desafio é cultural, educacional, e talvez de um sistema econômico. E nós precisamos nos atualizar para os novos tempos. Ser técnico não basta. Ser generalista não basta. É necessário mais. É necessário que aprendamos a vender a nossa própria alma.
De alguma forma fazer, até mesmo a máquina faz. Mas empacotar isso em algo que faz parecer que é indispensável para a população, bem, isso, ainda, somente o marketing consegue fazer.
Nada disso nos satisfaz. A produção em massa não conversa com nossa alma, ela traz conforto ao nosso corpo físico, mas não nos satisfaz. Por que somos humanos, e para satisfazer a nossa humanidade é necessário mais que aparência das coisas, é preciso entrar na raiz, na essência, ou seja, na arte realista.


