#0068 Não é sobre A é sobre B
ou: como é triste deixar de ler textos humanos

Navegando nas águas rasas e sem chuvas das redes socias, deparei-me com uma história super interessante de uma física que eu não conhecia: o nome dela é Sabrina Gonzalez Pasterski, uma mulher que é, sem nenhuma dúvida, original.
Comecei lendo a postagem sobre os feitos dessa heroina, começavam dizendo que ela, do absolutamente nada, havia construído um avião, aos 14 anos. Continuavam, diziam que ela, apesar das boas notas e ser uma aluna extraordinária, não tinha contatos e por isso não conseguiu sua vaga no MIT. Mas, que ela mandou um vídeo dela pilotando o próprio avião e logo saiu da lista de espera e se tornou aluna no curso de Engenharia Aeroespacial.
Uma história impressionante, mas que quando você lê com calma, chega esmagar sua alma com o que fazem com a linguagem. Em um trecho, a inteligência artificial por trás da publicação diz que essa não é uma história sobre hype, mas sobre foco sustentado em ideias difíceis que levam anos, muitas vezes décadas, para se desenvolver. A Linda Caroll fala dessa estrutura, a IA repete isso na maioria das vezes que precisa escrever sobre algo.
Quando eu li a história eu fiquei pensando: será que as pessoas sabem que existe um mercado consumidor completamente diferente do Brasil nos Estados Unidos, em que é possível você comprar um kit, como se fosse um quebra cabeças, e montar o seu próprio avião em casa? Que essa é uma prática que é até comum por lá? Mesmo assim, o feito dela não deixa de ser impressionante. Pesquisando, verifiquei que ela montou um Zenith CH601 XL, que nem consigo imaginar o tamanho da empreeitada de uma menina que fez isso nas horas vagas de sua escola entre seus 12 e 14 anos. Em uma de suas entrevistas, ela conta que montou 15 mil rebites, não sei nem o que é isso. Durante o processo ela teve suporte, todas as tardes seu pai, que era um engenheiro elétrico, o qual gostava de fazer as coisas, e explicava tudo para ela. E assim foi, até os 16 anos, quando ela pôde fazer o vôo experimental para “validar” o avião.
Essa é uma história que não passa como possibilidade para nós que vivemos na periferia do capitalismo. Outro ponto que é muito relevante, mas que no texto não foi citado, é sua origem. A mãe dela era cubana, então, em outras entrevistas ela se orgulha de sua origem latino-americana.
Depois de averiguar algumas informações para tentar entender o que tinha de verdade e o que era expeculação naquele texto, fiquei com a frase dele na cabeça: “Ela disse não ao Bezos. Não ao Google. Não ao Facebook. Eu não quero tornar os bilionários mais ricos, eu quero entender como o universo funciona.” Num podcast recente ( Sabrina Pasterski - Quantum Gravity, Black Holes and the Holographic Universe Theory | SRS) ela diz que na adolescência seus heróis eram Ellon Musk e Jeff Bezos. Não consigo afirmar que essa é uma frase mentirosa, mas me parece que, tratando-se de um texto de IA, ela faz um mapeamento de uma personalidade de alguém que estuda física como alguém que quer somente descobrir os mistérios do universo. Mas voltando a realidade, nesse mesmo podcast ela diz que chegou a estagiar na Nasa, na Boing e numa empresa do Bezos, mas que percebou que nessas grandes corporações ela não conseguiria inovar.
Algo que é frequente nas organizações é o apagamento do nosso “eu”, pois não fazemos nada sozinho. Uma grande empresa, seja ela qual for, terá diversos trabalhadores que, desde a copeira que mantém o café, até o CEO, ambos com papeis fundamentais. Parece que a sociedade não se lembra de quem fez de fato tudo acontecer, lembrando apenas das estrelas, dos heróis que são divulgados para as novas gerações adorarem.
Ela então pensou uma forma de se destacar e realmente inovar: seria na física teórica. Mudou de curso. Mudando também seu discurso, agora extremamente grata a esses bilionários por eles terem feito a inteligência artificial, conforme o podcast.
Além da tristeza de ver que a história dos fatos parece não contar a história motivacional que a IA quer nos contar. Fui ler os comentários das pessoas reais. Briga. Luta. Ninguém pareceu muito incomodado com a IA, nem quis checar qualquer informação, mas parece que eu não deveria me surpreender com isso, parece que essa é a realidade dos novos tempos.
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