#0072 Crônicas, seleção e a missão
ou: assistimos ao mesmo jogo, a mesma vida e vemos coisas completamente diferentes
Quando eu comecei a publicar textos sem limites de caracteres foi tão libertador que pensei: “vou escrever um texto todos os dias”. E sim, eu consigo escrever um texto todos os dias, mas não é um texto digno de ser lido por mais alguém além de mim. Nem todos os textos que produzimos têm o intuito de encontrar-se com um leitor. Revisitando os meus próprios textos, vejo que esse dilema sobre a quantidade e qualidade se constitui em uma relação dialética.
Semana passada completei dois anos sem beber bebidas alcoólicas, e isso foi um marco importante para mim, e acredito que possa ter significado algo proveitoso para o leitor sobre a composição dos vícios e nossa relação cultural com a bebida alcoólica. E foi nesse dia, que eu já tinha desistido da ideia de escrever todas as semanas, sentindo que o trabalho de meditar sobre um tempo e escrever não fosse digno do tempo do leitor. Mas encontrei a crônica da semana passada, e me lembrei de que sempre acreditei que a construção da qualidade vem depois da quantidade. Voltou a fazer muito sentido escrever uma crônica por semana, mas, talvez, reduzindo as frases, sendo mais conciso, e deixando mais fácil a vida do leitor para assim que ele encontre o texto se sinta à vontade para lê-lo.
E domingo passado tivemos a eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo de 2026 e sentimos. O futebol, como uma competição, é um jogo de soma zero, das quarenta e oito seleções que participaram da disputa, apenas uma delas sairá como vencedora. E, para a nossa tristeza (pelo menos de quem gosta da seleção brasileira de futebol) nós fomos eliminados de maneira patética.
Quando eu assisti ao jogo, tive uma sensação de descolamento da seleção, tudo bem, não sou o maior entendedor de futebol, e talvez tenha sido a melhor estratégia, e pudesse ter funcionado, caso os nossos jogadores tivessem acertado o gol nas chances que tiveram. Fomos eliminados, sem atacar a bola, deixando por mais de sete minutos a bola nos pés dos caras, assistimos ao Haaland fazer o gol. Pra completar a nossa humilhante eliminação, o menino Ney faz o gol de pênalti e corre para responder provocações do goleiro, em vez de correr com a bola e não desistir de lutar até o último minuto. Felizmente, já fomos eliminados e não corremos o risco de um novo 7 a 1.
Outro ponto que me chamou atenção foi que o Vinícius Júnior não cobrou o pênalti para a seleção. Na entrevista, o técnico disse que o Bruno Guimarães bateu melhor os pênaltis nos treinos. As redes sociais foram inundadas por uma chuva de publicações mostrando que os protagonistas nos outros times batem seus pênaltis, menos o nosso. Peculiarmente na mesma semana Messi bate, erra, Kylian Mbappé bate e erra também, ambos não desistem do jogo, não se entregam e continuam até a vitória. Parece que há uma dificuldade em assumir a responsabilidade. O nosso artilheiro pega a bola e entrega para o volante.
E o que dizer da nossa síndrome de esperar o salvador? O grupo inteiro esperava o Neymar resolver. Eles queriam que o Neymar fosse o Messi, eu também, confesso. Vale até a publicação, em dez minutos fez mais, fez o gol. Será que nós assistimos ao mesmo jogo? Será que vemos o mesmo cara jogando? Sem correr atrás da bola, sendo feito de bobinho e sendo corresponsável pela seleção ter levado dois gols? Isso me lembra o Brasil. Assistimos à mesma realidade e temos interpretações completamente diferentes.
Mas e o Lula?
Mas e o Messi?
Na mesma semana tivemos outro jogo incrível da Copa do Mundo, e para a tristeza da maior parte de nós, o ET (para quem não conhece, o apelido do Messi) fez mais uma vez milagre, segundo uma inteligência artificial só aconteceu 16 vezes, em todos os jogos uma virada quando o time perde de 2 a 0 até os 79 do segundo tempo, e o craque conduziu a seleção à vitória. O Messi é genial, podemos até mesmo discutir se ele é ou não o maior jogador da história do futebol, e, é um exemplo de treino, dedicação, e me impressiona que ele é casado, tem filhos, e mantém esse relacionamento.
Na década de 2010 eu li uma biografia dele, ele tinha por volta dos 25 anos e já havia conquistado 4 bolas de ouro, batendo todos os recordes. Estamos acostumados com isso, jogadores que chegam tão longe, e depois o nível do futebol cai, mas ele não, aos seus 39 anos, disputando artilharia com a garotada. Não devemos também desconsiderar que a tecnologia avançou, os treinamentos também, e a prevenção a lesões é bem menor, como ele mesmo diz, o Ronaldo sofreu diversas lesões no decorrer da carreira, o que dificultou muito sua manutenção no futebol de alto nível. Só que o que vemos nos bastidores são coisas bem opostas, enquanto um cara não tem diversas traições no currículo, processos por pensão alimentícia, acusação de homicídio (não vamos esquecer de Bruno), e o nosso mago (Ronaldinho Gaúcho) preso no Paraguai por usar documentos falsos, me parece existir uma construção de uma masculinidade diferente. Analisando de fora, como um leigo vejo que enquanto nossos craques se rendem aos desejos carnais, como festas, drogas e objetificações de mulheres e mais mulheres, o ET segue trabalhando fazendo o que ele mais gosta.
Imagino que ele deva ter defeitos, não faço ideia do posicionamento político dele, ou como é a relação privada dele com a esposa. Eles se conheceram quando ele tinha 9 anos, ele se apaixonou na adolescência e se casaram. Se isso é real, não sei. Mas talvez isso não faça diferença, é um exemplo bem diferente do que o Neymar foi, a promessa que nunca se concretizou na seleção, tenho certeza que os argentinos terão orgulho dessa seleção independente do resultado, e não é o mesmo que nós brasileiros sentimos: vergonha.
Outro ponto peculiar da biografia do Messi é que ele dormia mais de dez horas por noite, e tirava um longo cochilo da tarde. Como anda o seu sono? Tudo isso me intriga, e vi que saiu uma nova biografia dele, que certamente lerei e trarei mais informações dessa lenda.
Será que estou conseguindo trazer aos eventos ordinários da vida uma construção literária? Me inspiro no Messi da Literatura, que é nossa Clarice Lispector, que em algum momento, também se comprometeu a escrever uma crônica todas as semanas.
A escrita não precisa existir apesar da vida, ela acontece com a vida.
Se você gostou da temática, em, #0020 O seu hobby parece uma tarefa?, eu falo que meu maior problema era adaptar a rotina pra conseguir tempo pra um hobby que a internet insiste em querer transformar em negócio. Spoiler: eu ainda não resolvi. Mas em, #0040 Quando a qualidade supera a quantidade?, eu dei um passo, assumi que era impossível manter a frequência de duas vezes por semana com a qualidade que eu devo a você que me lê — e a mim mesmo. Foi menos uma derrota e mais um acordo de paz. E no, #0067 Vale a pena escrever todos os dias?, eu volto a cavar esse mesmo poço, dessa vez com as contas na mesa: no mundo real, com a vida acontecendo, a gente faz o que dá. E nem sempre o que dá é sentar e escrever.
Agora, se o que te pegou foi a parte da seleção — essa nossa mania de esperar o salvador enquanto ninguém pega a bola pra bater o pênalti — talvez você queira ler, #0042 Por que todos nós achamos que temos a solução para os problemas do Brasil?, onde eu falo do efeito Dunning-Kruger e dessa nossa certeza de que temos a solução pra tudo, menos coragem de assumir a responsabilidade pela própria ignorância. E a, #0004 A chocante realidade sobre o aprendizado da IA, é quase uma irmã gêmea daquela frase que escrevi ali em cima: nela eu me pergunto como especialistas olham pra mesma inteligência artificial e uns enxergam apocalipse, outros, salvação. Assistimos à mesma realidade. Interpretamos mundos diferentes.
E se você chegou até aqui, talvez você goste realmente daquilo que eu escrevo. Talvez também, faça sentido você assinar os meus textos para apoiar o meu trabalho, e para não ficar aquela coisa tão comum de ter textos exclusivos, iniciei o projeto das cartas. Você vai receber uma carta, com um texto exclusivo, todos os meses, clique aqui para conhecer mais desse projeto.


