
Na última bienal do livro de São Paulo houve um vídeo que viralizou, o entrevistador pede, valendo um livro, para as pessoas citarem dois autores(a) negros.
Dois.
No recorte que ele nos trouxe nenhum ser humaninho conseguiu a proesa.
A história piora com vários brancos em seguida fazendo as mesmas listas de autores(a) negros para ler.
E eu que pensei que comigo seria diferente, claro que dois autores negros eu conseguiria indicar, mas quando fui olhar as estatísticas de minha leitura, dos autores que li, apenas cerca de 15% são negros.
Se eu não me policiar e fazer uma força para ler homens não brancos só vou ler isso, o mercado é inundado desses livros.
E sem esse movimento eu não teria lido parte dos meus livros favoritos da vida: Diário de Bitita e Fique comigo, o primeiro da Carolina Maria de Jesus, e o segundo de uma autora contemporânea nigeriana.
Preciso te alertar que darei spoilers sobre o livro “Fique comigo”. É uma história sobre poligamia. E é narrada por Akin e Yejide, eles se conhecem na faculdade e se casam.
O livro começa com a família de Akin trazendo uma nova esposa para ele, a Funmi. E acompanhamos o choque de Yejide que fica revoltadíssima. Quando se conheceram, ele havia prometido que ela seria sua única mulher. E vamos sentindo tudo o que a Yejide sente durante a trama. Somos transportados para a Nigéria e vemos os absurdos que acontecem na história. Em um plano de fundo há uma milícia que aos poucos vai se apoderando da cidade, e todo mundo precisa pagar para os bandidos que se tornam o próprio Estado Nigeriano. Há também uma promessa de que agora vai acabar a ditadura e eles poderam votar, enfim, no presidente. Mas essa independência não chega. Em 25 de desembro de 2025, o governo dos Estados Unidos junto com o governo nigeriano fizeram uma operação contra um grupo islâmico.
Voltando ao conflito doméstico, a nova esposa do Akin entra na família e ela vive numa casinha afastada. Acaba não morando com os dois. Ela só veio existir porque Akin não consegue engravidar a esposa. Ela fez todos os exames, fez tudo, e mesmo assim, não consegue engravidar. O marido também alega que fez.
Essa dor que ela tem vai aumentando. Há uma cena maravilhosa no livro em que ela vai para um monte em busca de um milagreiro para poder engravidar. Ficamos numa apreensão, uma tensão em que ela experimenta algumas ervas e parece que vai sofrer algum tipo de abuso, felizmente não acontece. Ela volta crente que engravidou. Fica um ano alimentando essa esperança que estava grávida, tem algo como se fosse uma gravidez psicológica.
Mas ela não está grávida. A história vai se desenrolando, até ela ser confrontada pelo cunhado. E ter uma relação com o cunhado. Finalmente engravida.
Depois que a criança nasce, na festa de batismo da primeira criança, Funmi cai da escada e morre. Quando eu vi essa cena, achei super estranho, do nada ela caiu da escada. Fiquei encabulado, no final, foi revelado que ela foi assassinada.
A trama é surpreendente. Eu ia contar o final e como aquele fiquei é genial, mas vou acabar deixando passar. Em suma, tudo o que você espera acontece diferente, é um livro que te surpreende do início ao fim. A cada virada em cada capítulo.
E não tem como deixar de ver as semelhanças entre o Brasil e a Nigéria, mesmo que lá exista uma cultura poligâmica, ainda assim, nos aspectos de colonização, somos muito parecidos. Embora, os personagens, ainda assim, falem o próprio idioma. E nós fomos tão bem colonizados que não falamos nenhum dos idiomas afro ou indígenas.
Ainda dá para sonhar com a independência, ao menos da nossa cabeça, já que eles apontam as armas para nós, nos exigindo uma submissão total.
Se você chegou até aqui é que busca mergulhar no mar e não na piscina. Não há um dia que eu não me pergunte se deveria continuar publicando meus textos, já que não escrever não é uma opção; uma vez que o mundo, ao menos como conhecemos, está se acabando.
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