Quando criança, íamos visitar a minha avó, e ela tinha uma fazenda na beira do rio Tocantins. Eu ainda era muito criança e íamos poucas vezes. Os custos da viagem eram muito caros, e somente eu e minha mãe íamos com uma frequência maior. A fazenda era muito emblemática, não tinha luz, nem banheiro; não sei se o leitor conhece as privadas de antigamente. Eles faziam um buraco no chão e você chegava lá, junto com os mosquitos, era pavoroso. Eu, criança fresca da cidade, não gostava. Preferia cagar no mato e limpar com as folhas. Tenho poucas lembranças dessa época. As lembranças seguintes já havia Lula e luz, o programa era o “luz para todos” e nisso me vem a primeira lembrança do ódio.
A família da minha mãe era dividida em três núcleos: os que moravam no Distrito Federal, os do Tocantins e os do Pará. O Tocantins era um Estado recém formado, feito na separação do Goiás na Constituição Federal de 1988. Até então, aquele lado do país era conhecido como o corredor da miséria, o norte de Goiás e o sul do Maranhão. O núcleo do DF tinha a minha madrinha, que, nas eleições de 2006, dizia com raiva, que era um absurdo o pessoal do Tocantins votar no ladrão, que o Lula só tinha roubado menos porque tinha 9 dedos. Era um vagabundo, sindicalista.
Lembro de uma outra conversa, logo após a eleição de 2002, eu com meus 9 anos, já tentando entender a conjuntura política do país, e um primo dos membros da família que moravam em Brasília, exibia, com orgulho a bandeira no peito, a bandeira vermelha, e ele dizia, nós aguentamos 8 anos do FHC... e meu tio, revoltado com essa vitória. O primo, servidor público do bombeiros, e meu tio não conseguia concentração para estudar, e não tinha conseguido passar nas forças armadas, na época, empreendia. Esse primo, mais tarde, largou a família, casamento estável, e se assumiu homossexual, já imagina o escandâ-lo que foi, né?
Ele tinha duas filhas, e sua ex-esposa encontrou refúgio numa igreja evangélica, e fui no batizado de uma das filhas, no noivado de outra, e acompanhei o desenvolvimento delas a essa nova ideia de um Estado mínimo, mesmo tendo sido sustentadas, a vida inteira, por um salário do Bombeiro.
Minha madrinha falava do Serra com tamanha admiração, depois do Alckmin, mas sempre registrando a raiva que sentia do Lula, dos petistas, desse povo. Eu tentava entender, me lembro de questionar, por que? Mas não me lembro das respostas.
Em 2010, eu ainda estava no Ensino Médio, estudando numa escola católica brasileira, e fiz uma pesquisa de intenções de votos. 40,95% das intenções de votos eram para a Dilma.
Veio a Dilma, e a estagnação econômica do Brasil, início das redes sociais, e o Facebook e os idosos. Nas eleições de 2014, nesta altura eu já trabalhava na Caixa, e, por ser um empregado público, eu acreditava num estado desenvolvimentista e é claro que eu iria votar na Dilma. Mas meu pai não. Ele sempre lembrava do mensalão. Mas nunca o vi falando sobre o Collor, o caçador de Marajás, o congelamento da poupança, e a dívida pública. Acompanhei também os colegas de escola, que em outrora eram neutros ou respondiam ao que viam em casa, mas agora se declararam contra a corrupção, contra Dilma, que venha o Aécio! O placar era terrível, eu e mais um colega, contra uns 10 que eram Áecio.
Nessa época, eu ainda gastava tempo pesquisando como havia sido os governos estaduais, eu ainda acreditava numa democracia meritocrática e que o melhor projeto de governo vencia. Mas ainda assim, não entendi onde estava tão ruim, ou o motivo de terem tanta raiva do PT. Nessa época, meu tio continuava com o mercado, empreendendo, mas já havia perdido o “boom” do crescimento da cidade, e o comércio dele não cresceu. Veio a concorrência, o capital, as grandes redes e ele ficou para trás. Minha madrinha não aguentando mais viver na cidade, depois de desistir de um negócio de cogumelos foi para o Movimento dos Sem Terra — você leu certo, ela, que sempre foi de direita, foi ao movimento de distribuição de terras. Já meu tio, não ficou de fora, também se aprumou para ser beneficiário das políticas públicas, como o Programa Bolsa Família e outros benefícios do governo. E a família do Tocantins? Eles ainda não tinham chegado às redes, então eu ainda não sabia, mas a distância entre a luz e o tempo presente era grande, não é? Já havia surgido a narrativa que o Lula não tinha feito nada, que só tinha continuado o projeto de luz do FHC.
O frio na espinha percorre o corpo, lembrar de 2018 é como lembrar que mortes poderiam ter sido evitadas.
Toda e qualquer máscara caiu.
Não era mais somente contra a corrupção, era contra o sistema, eu já tinha desistido de apontar a incoerência na lógica, como pode um deputado com 30 anos de casa ser contra o sistema? É uma piada. Meu pai tinha os olhos brilhando ao falar do Sérgio Moro, até hoje ele o admira, se ele se candidatasse não tenho dúvidas que teria o seu voto. Meu pai acompanhava as notícias da globo, os jornais e a imprensa de maneira geral. Felizmente. Graças a isso, pelo menos ele não se tornou anti-vacina. Já a família do Tocantins estavam todos apaixonados pela mudança, pelo 17. Quis romper com todos, naquele momento se tornou impossível para mim ter uma continuidade na família. Talvez antecipando o movimento, no início daquele ano, eu saí de casa.
Desde então, estive distante de todos.
E todos haviam chegado nas redes sociais, e as redes sociais explicam todas as inconsistências de maneira simples. E as redes sociais esmagaram minha realidade, mesmo depois de tudo, o ódio continuava.
O Brasil quebrou.
Lembram do meu pai? Que sempre criticou toda a corrupção? Aos 72 anos, em 2022, foi votar no Lula. A ciência ainda pode mudar o jogo.
E se hoje entendo os motivos, e por entender os motivos de seus votos, não consigo mais admirar. Eles podem até não acreditar na existência do clone, mas o que eles acham sobre o Lula nunca existiu. E por mais que exista uma ideologia muito forte conduzindo tudo isso com todo o poder do capital, existe também uma escolha individual.
E talvez o leitor se pergunte sobre minha mãe, bem, ela nunca me contou em que votou.
Se você chegou até aqui é que busca mergulhar no mar e não na piscina. Não há um dia que eu não me pergunte se deveria continuar publicando meus textos, já que não escrever não é uma opção; uma vez que o mundo, ao menos como conhecemos, está se acabando.
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