
Roman Jakobson se tornou famoso por desenvolver o modelo clássico da função da linguagem, sua ideia é bem simples, em qualquer ato da linguagem existem seis peças — quem fala, quem escuta, a mensagem, o assunto, o código que os dois compartilham e o canal que liga um ao outro.
Neste sentido, a linguagem serve para que possamos nos comunicar. Talvez seja válido fazer uma diferenciação entre linguagem e língua, a primeira é relacionada a nossa capacidade de aprender uma língua. É como se fosse um instinto. Algo que todos os seres humanos vem de fábrica, isso nos permite que o bebê que nasce no Brasil aprenda o português e o que nasce no Japão aprenda o japonês. E a língua? É o japonês, o português, o inglês, ela também pode ser entendida como idioma. E faz sentido, não faz? O português existir para que eu possa escrever esse texto e você entender. Só que você já tentou conversar com um bolsonarista?
Esses dias eu li um estudo da antropóloga Polly Wiessner, publicado em 2014, sobre as conversas dos Ju/’hoansi do Kalahari. Ela comparou os assuntos de 174 conversas diurnas e noturnas e ranqueou os temas. Ela observou que as conversas não tinham uma utilidade, era como se fosse simplesmente para se jogar fora. Se o tempo gasto numa conversa não pode ser convertido em uma mercadoria que possa enriquecer o capital, então é inútil.
Esta é uma semana diferente, uma semana que estou me afundando no inútil. Os bancários da Caixa (incluindo-me) estão de greve. A principal reivindicação é voltar o sistema de custeio do plano de saúde para o mesmo que constava no edital do concurso de todos (modelo de custeio de 70/30 — em que a empresa paga 70% das despesas e os empregados 30%). E neste momento eu não estou fazendo nada que vá remunerar o capital. Bem vagabundo. Bem inútil. Bem parasita como dizem alguns colegas.
E já dizia a tradição cristã, cabeça vazia é oficina do diabo, mas não é exatamente o diabo que se apossou dos meus pensamentos, mas uma possibilidade: e se não existir nada depois da vida?
Durante toda a minha criação cristã eu acreditei em uma alma imortal, acreditei em Deus como uma negação de todas as minhas limitações humanas: infinito, perfeito, onipresente, onisciente e imortal. Mesmo durante meu rompimento com as crenças, incluindo da vinda de Jesus Cristo, ainda assim, eu acreditava em Deus. Mas e se não existir nada? Sempre quando eu penso nisso, vem aquele embaraço, e sobre o começo, sobre o Big Bang. Essa causa primeira que nunca vamos entender. Fazer essa afirmação é válido dado o recorte temporal dela, em minha existência não existirá essa resposta. Existem infinitas possibilidades para essa causa primeira, inclusive uma ausência de consciência, de um Deus pessoal. Um: simplesmente começou. E é aterrorizador pensar nisso.
É absurdo.
Ausência de consciência. Nós temos uma consciência, nós sabemos que estamos aqui, e mais, sabemos da finitude de nossa vida. E todos esses conceitos, histórias e essa percepção do tempo são ligados à linguagem, esse algo que aparentemente só os humanos possuem. Estou neste momento olhando para a leveza do meu gatinho, ele não sabe que vai morrer.
Você se lembra de sua consciência quando criança? Ela não parece ser única? Eu me sinto o mesmo em todos os minutos de minha breve existência, embora as minhas ações, as ideologias que carrego, os sonhos, tudo, absolutamente tudo seja diferente. E essa mesma consciência (que acredito se manter constante) é anterior à linguagem.
Michael Tomasello acredita que a cultura foi criada, aprendida — não existindo um momento ímpar em que do nada, os seres humanos acordaram. Segundo ele esse processo foi ocorrendo aos poucos. Por exemplo, ele argumenta que alguns primatas conseguem apontar, supondo uma consciência disso, nossos ancestrais apontavam e sabiam que estavam falando da mesma coisa. Cada geração herda o conhecimento da anterior. Se pegarmos outro linguista, Daniel Everett, que também fala de linguagem, ele se baseia na definição de ícones, índices e símbolos, conceitos elaborados por Charles Sanders Peirce. Segundo Everett nós primeiros aprendemos que uma pegada refere a um animal, depois associamos fogo a fogueira, por fim, começamos a ver símbolos, uma pedra que se parece com um rosto, por exemplo. Tudo isso não foi isolado e dialoga com a evolução, essa consciência do mundo foi surgindo, e ficando mais sofisticada com os nossos ancestrais da família homo (humanos).
Pura especulação agora. Quando tivemos a consciência de que estamos aqui sozinhos prestes a morrer, precisávamos fofocar, fazer o outro entender, nos comunicar.
Falar é tão poderoso que é a psicoterapia.
Só que para falar precisamos dos mesmos significantes. Se eu falo para você PT e você devolve corrupção, nós não vamos conseguir nos comunicar. E por eu tentar falar, e nunca ser ouvido, acredito que tenha surgido essa vontade de escrever, de me tornar um escritor, de conversar com consciências iguais a minha que sentem que o fim do mundo nunca esteve tão perto, e por isso abrem um sorriso de orelha a orelha quando escutam um pássaro cantando.
Se você chegou até aqui é que busca mergulhar no mar e não na piscina. Não há um dia que eu não me pergunte se deveria continuar publicando meus textos, já que não escrever não é uma opção; uma vez que o mundo, ao menos como conhecemos, está se acabando.
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