
Os modelos internos da OpenAI resolveram um dos 7 problemas do milênio e quando eu pergunto para eles coisas simples como: um conselho ou uma análise da minha carreira, ou sei lá, como ficar rico, eles não resolvem esses problemas.
Isso não deveria me surpreender, perguntei ao Fable 5.1 (modelo da empresa Anthropic) o motivo disso e ele me respondeu o seguinte: “Sou uma rede neural que leu meio mundo de texto pra aprender uma coisa só: adivinhar a próxima palavra. Adivinhar bem me obrigou a aprender gramática, fatos e raciocínio de tabela. Na conversa, leio o que está na tela, escrevo um pedacinho, leio de novo. Fora dessa janela, não existe nada. Consigo provar um teorema porque milhares de matemáticos escreveram sobre ele. Não sei como te deixar rico porque quem sabe não escreveu.”.
Doeu.
Ninguém escreveu como eu poderia ficar rico. Quase todas as nossas conversas terminam em círculos, já que, parece que somente o humano pode ainda criar um destino.
Na resolução desse problema devem ter gastado um Lago Paranoá, uma vez que foram 88 horas de processamento e a solução de saída foi de 300 bilhões de tokens, em uma conta de padaria, eles torraram também por volta de 15 milhões de dólares para essa solução (considerando que o modelo mais potente deles — que é o Astra — custa 50 dólares por cada milhão de tokens).
É importante eu dizer que eu não sou um especialista da área, apesar de ter feito Tecnologia de Ciência de Dados e entender um básico do funcionamento desses modelos, eu fico em choque vendo o quanto eles avançaram nos últimos 4 anos, saíram de ajudantes de teclado para se tornarem modelos de fronteira e projetos de segurança nacional, em diversos países. Será que sobra alguma coisa para nós: humanos, não gênios, não ricos, não brancos?
Eu entro no meu emprego, bato meu ponto e começo a resolver problemas, mas vem aquela voz infeliz que fica dizendo: “Para que você tá fazendo, se daqui a uns meses ou anos a IA vai fazer muito melhor isso?”.
E as nossas condições de desigualdades tendem a se tornar mais desiguais.
Enquanto essas grandes empresas têm praticamente dinheiro infinito para torrar nessa guerra de quem desenvolve o melhor modelo de inteligência artificial, eu sinto a aflição, medo e um certo desespero por não conseguir mais ver a utilidade do meu trabalho. É difícil me libertar da ideia de que o meu valor não está ligado a minha produção, ao meu conhecimento e ao capital que acumulei na vida.
Gosto de acompanhar visões e campos diferentes do conhecimento para ampliar as perspectivas de filtragem do mundo, nisso, acompanho o canal: Matemática como Hobby, e num de seus vídeos recentes ele comenta que pesquisadores, que estavam travados, em seus campos de pesquisa, com prompts simples, conseguiram as respostas e provas que resolviam diversos problemas avançados no campo da matemática que eles pesquisavam. Deve ser assustador passar algumas décadas de sua vida e uma máquina, que nem pode morrer, sem qualquer traço de consciência e finitude resolver o problema da sua pesquisa. Mas também não sei, vai que a pessoa fica feliz em finalmente resolver aquilo, e não em ir embora, dessa Terra, sem ter resolvido aquela grande questão.
Tristan Buckmaster que é um professor de matemática da universidade de Nova York, ele estava trabalhando na solução desse mesmo problema do milênio há quase um ano junto com o Levent Alpöge — um empregado da Anthropic, concorrente da OpenAI — eles estavam usando vários modelos de linguagens nestes trabalhos, e avançavam lentamente. Mas como Levent trabalha na Anthropic, e bastou isso pro boato virar “a Anthropic resolveu um grande problema matemático”. Só que não era a Anthropic era o Tristan e o Levent pagando ferramentas com o próprio dinheiro — inclusive os modelos da OpenAI. Quando soube que a informação tinha vazado pra lá, em 3 de setembro, Tristan escreveu pra um matemático da OpenAI avisando que o seu trabalho existia e sairia em breve.
Para sua surpresa eles lhe responderam super-rápido, exigiram reuniões urgentes, informando-o de que um modelo interno havia supostamente conseguido provar o problema das equações de Navier-Stokes. Além disso, sugeriram que ele assumisse a pesquisa sozinho e reconhecesse o feito da OpenAI, mas exigindo, explicitamente, que Levent ficasse de fora da autoria do trabalho. Tristan recusou na hora, achou que isso foi um tom de ameaça. Eles não tinham recursos pra concorrer contra os 15 milhões de dólares. Portanto, perderam a corrida de quem primeiro faz o prompt. Tristan levanta ainda um ponto, ele questiona a OpenAI, diversas vezes, se eles usaram os chats privados da conta dele como alimento para o robô, pois achou tudo muito estranho. Negaram que romperam a privacidade dele, mas não descartaram que as conversas — anonimizadas — que ele teve pudessem ter sido alimento para o grande robô. Você pode conferir o relato dele aqui.
O mais engraçado é que esse texto, no dia que ele sair, servirá de almoço para o próximo modelo revolucionário, e todo o resto da novela você já conhece.
Dito isso, me lembrei de que eu quis me tornar escritor eu queria ser imortal. É sedutora a ideia de que nós pudéssemos ser tão geniais que se passariam gerações e gerações de seres humanos e ainda se lembrariam da gente, e por lembrarem, não morreríamos. A inteligência artificial tem compilado o conhecimento, mas nunca poderá ser imortal, porque nunca pode viver e morrer. E nossa existência, por ser finita, por ser mortal, nos faz viver. E mesmo a imortalidade dos grandes escritores por suas grandes obras e ideias, não é uma vida imortal, são somente ideias e obras. E as ideias agora podem existir para sempre, mesmo sem nunca terem vivido um único dia nessa Terra. Mas por ora, ainda posso morrer em paz.
Se você chegou até aqui é que busca mergulhar no mar e não na piscina. Não há um dia que eu não me pergunte se deveria continuar publicando meus textos, já que não escrever não é uma opção; uma vez que o mundo, ao menos como conhecemos, está se acabando.
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Depois de ler essa crônica me veio também a reflexão: será se também não desejamos ser eternos como possivelmente acreditamos que a Inteligência Artificial possa ser?
Acho interessante você trazer pontos tão importantes, e que é real o sofrimento de uma parcela da sociedade quanto a essa ameaça de sermos substituídos por ela. Acho que nunca foi tão presente essa ameaça. E como os matemáticos, e assim como você, que se dedicam uma vida a fazer algo tão artesanal, com cuidado.. que as vezes pode ser solucionado por uma IA. Qual o sentido? O propósito então? A paz vem a partir do momento que também olhamos que ela não sabe responder todas as perguntas.