#0075 Sobre o dia que eu superei a IA
ou: será que eu realmente sei usar a IA?

Essa semana, depois de meses pesquisando para resolver um problema de armazenamento de dados, algo que é simples, muito simples depois que você encontra a solução, você pensa: como eu não pensei nisso antes? Eu, como também um entusiasta de tecnologia, sempre estou testando um outro modelo de inteligência artificial para me ajudar nas difíceis atividades laborais. E, testei tudo, até mesmo o poderoso Fable (modelo de inteligência artificial da Antropic, talvez o mais avançado do mundo, que foi bloqueado para qualquer um que não fosse norte-americano-estado-unidense) e ele não resolveu o meu problema. Eu sei que talvez eu não tenha sabido fazer o prompt correto, e portanto o problema tenha sido eu que não tenha sabido como usar a ferramenta. Ao mesmo tempo que só posso chegar na solução que eu cheguei porque a inteligência artificial me ajudou com as fórmulas e diversas possibilidades que eu não conseguiria sem a máquina. Qual a solução? No final, bastou a criação de três planilhinhas no excel. Será que não sei sobre a máquina ou estão nos vendendo o autômato de xadrez igual da imagem?
O nosso fascínio por máquinas não é de hoje. Em 1769 a imperatriz Maria Teresa da Áustria viu uma apresentação de ilusionismo, na época ela estava acompanhada do engenheiro e inventor húngaro Wolfgang von Kempelen; ele achou super fraca a apresentação, e disse que dentro de um ano voltaria com um truque de verdade! Foi então, que após um ano, ele trouxe ¨O Turco¨: que era um boneco de madeira do tamanho de uma pessoa, vestia trajes otomanos tradicionais, sentado atrás de um grande gabinete de madeira (como exibe a imagem). A inovação dele era que no início do truque, ele abriria o gabinete exibindo as engrenagens, roldanas, e tudo. O truque consistia que no momento da abertura, o humano subia, enquanto as engrenagens desciam, e realmente, parecia que era uma máquina pensante. No final do século, em 1789, o alemão Joseph Friedrich Freiherr von Racknitz publicou essa imagem em que ele tentava desmascarar o turco, mas as pessoas acreditavam, e ele fez turnê pela Europa, pela América, até mesmo Edgar Allan Poe assistiu a uma apresentação ¨dO Turco¨, publicando um artigo em que ele também chegava próximo do funcionamento da máquina. Passaram-se pelo Turco mais de 15 mestres de xadrez, muitos deles com dificuldades financeiras, viajavam às escondidas junto à delegação ¨dO Turco¨.
(vídeo gerado usando o MIRA Animator)
Duzentos e trinta e seis anos depois da estreia ¨dO Turco¨, o campeão mundial de xadrez Vladimir Kramnik jogou contra um programa comercial Deep Fritz, rodando num computador comum, e perdeu de 4 a 2. A partir desse momento, a comunidade aceitou que os humanos simplesmente não eram páreos para as máquinas no jogo do xadrez. É interessante notar que por volta dessa época eu comecei a jogar xadrez, jogo até hoje, gosto, e de maneira geral, o jogo sobrevive, e usamos a máquina para nos tornarmos melhores, mas jogando contra outros humanos.
E as máquinas hoje são muito melhores que esses computadores comuns que jogavam xadrez, elas estão quase fazendo atividades gerais. E quando essas máquinas que conseguem programar chegaram até mim, foi algo exponencial, comecei a sonhar de um jeito que nunca tinha sonhado antes. Agora eu poderia pensar em um mundo que ainda não existe, criando-o. Também automatizei algumas tarefas, e tenho conseguido pensar, me dedicar a esses problemas que a inteligência artificial não consegue resolver. Mas, me sinto completamente incoerente, pois eu sei que parte do material com que as inteligências artificiais foram treinadas, foi um material roubado. Inclusive a Antropic responde por ter comprado diversos livros raros, para treinar seu modelo, livros que não foram feitos para isso. É como se estivessem pegando qualquer conhecimento humano e encaixotando nessas máquinas. Isso vale também para os repositórios “livres” de programas. Ela foi treinada com os mais diversos programas feitos para serem acessíveis para todos, e hoje, esse conhecimento fica restrito a essas empresas que exigem uma assinatura. É completamente absurdo isso. Mas, não consigo pensar numa solução, é como o capitalismo: vou morrer individiualmente pra resolver um problema que é coletivo?
Só que existe algumas coisas que dá pra fazer, uma delas é utilizar os modelos chineses que são abertos. Como também tento não utilizar para gerar novos textos, já que é um plágio completo o que ela escreve. Sem contar nas imagens, por isso, já tem um certo tempo que resolvi só usar imagens de artistas disponíveis em domínio público. E uso também para gerar código, consequentemente programas, pois, sinto que é o menos “roubado” já que os códigos tinham a licença para serem livres, uma pena que viraram propriedade de poucas empresas.
Todos nós temos a nossa própria incoerência, e talvez a burocracia seja o que nos salve. Na burocracia há tanta coisa que é inefável. Numa grande empresa há tantos processos que é impossível colocar e documentar, inclusive um dos grandes problemas é que não existe documentação, que as coisas vão sendo feitas da forma como dá e vão ficando no contexto da cabeça de cada empregado. Neste sentido, essas empresas parecem salvas, e os empregos também. Mas existe o outro lado, as novas empresas que surgem com um ou dez colaboradores, que fazem a mesma coisa, mas eliminam completamente a burocracia. Será que as velhas empresas sobrevivem a isso? Será que não há nada de humano num produto que é feito por milhares de empregados humanos? Será que vamos valorizar os humanos além do discurso e compraremos produtos humanos? Será que em breve a máquina vai resolver qualquer problema e nós seremos inúteis?
Meu processo é sobre a inutilidade. Acredito, veemente, que a condição humana está na inutilidade. Há quantos séculos não sonhamos com essa ideia de não trabalhar? De não mais ter que conseguir o ócio da nossa existência? Não foi esse o nosso primeiro castigo segundo a mitologia cristã? Gosto da esperança de acreditar que estamos vivendo, desde o início da revolução agrícula, um processo de transição em que nós saímos de uma condição e vamos antingir uma outra, e finalmente, conseguiremos, juntos, humanos, superar o problema da matéria.
Se você gosta desse mundo do trabalho, indico a #0060 — "Quanto tempo falta para nossas cabeças estarem expostas assim?" ou também a #0057 — "Quando é a hora de pedir demissão?" em que eu brinco até colocando um paragrafo feito por IA, e pensando quando elas vão roubar a nossa vida.
Agora se você quiser entender um pouco mais sobre a inteligência artificial eu indicaria a #0029 — "Superinteligência ou superenganação?" e #0004 — "A chocante realidade sobre o aprendizado da IA".
E se você quiser conhecer um pouco mais sobre o meu trabalho indico a crônica manifesto: #0039 — Em busca do Inútil.

