#0074 Eu sempre achei que tinha um amor incondicional pela escrita, até ser lido

Nós somos criados recebendo o amor condicionado, por exemplo, imagine o aluno que é ovacionado ao receber uma boa nota, ou o filho que ganha presentes por ser obediente, ou que tal o badboy que na escola é popular por ser, digamos, bonito. E queria eu ter tido uma reflexão tão boa quanto essa, mas vale a pena ouvir o podcast: “131: Condicionais” sobre amores condicionais ou incondicionais.
Se tudo isso é o amor condicional a algo, o amor incondicional seria apenas amar. Será que nós seres humanos temos a capacidade de amar, bem, apenas por amar? Eu sempre achei que tinha um amor incondicional pela escrita, até ser lido, até ser surpreendido por um carinho absurdo dos meus primeiros leitores e leitoras. É, eu não escrevia por escrever, eu buscava exatamente essa condição de ser “adorado” por escrever algumas palavras.
No podcast há uma esperança. É como se fosse muito para nós conseguirmos amar incondicionalmente de cara algo, alguém. Vejamos, por exemplo, nossos relacionamentos. Nós ficamos com alguém condicionados à química de nosso corpo, os tais prazeres carnais ou racionais. Com o passar dos anos, vamos conhecendo aspectos que nos agradam cada vez mais e outros nem tanto. Na minha especificidade, senti a existência de células do meu peito, jamais mapeadas. Cada dia que vivi com a Kamylla é um dia que parece que o amor surge de maneira incondicional. É como se eu fosse chamá-la independente de tudo. Mas será? Parece também não ser possível isso, pois, a relação é construída e nessa construção acabamos fazendo concessões que alimentam o nosso amor.
Volto então à Literatura, ao ler algo, neste momento de inutilidade, parece ser realmente o estado mais próximo do que seria o amor incondicional. Você simplesmente ama ler e não recebe nada por isso e continua com o amor. Recentemente li o livro “pôr a poesia” do Gledson Sousa. Foi como receber um amor incondicional do livro. Gledson, utilizando-se de uma técnica de dicionário, vai construindo diversas imagens para, quem sabe um dia, lembrarmos de nossa própria humanidade. A segunda parte é um poema, Espiral, e a poesia tem isso, não dá pra explicar, cada um precisa ler e tentar extrair o próprio amor incondicional.
Não obstante, abandonei um livro esse mês. Estou vivendo uma correria, como tantas outras pessoas, e o livro não me pegou logo de cara, como se fosse: chato. Parece então que eu espero algo dos livros e da leitura. É terrível perceber que não existe ainda um lugar em minha vida, em que existe esse tal, desse amor incondicional.
Isso tem algum sentido? A Não é sobre resultados, é sobre pessoas é um texto que tem um quentinho no meu coração, nele tento me convencer que deveríamos pensar em pessoas e não em resultados. Parece que estou tentando me libertar de todos esses condicionantes; se você ainda não conhece o manifesto de origem desse projeto, indico a Em busca do inútil. Por fim, vou indicar o meu xodozinho, a Ser escritor é ser alguém que escreve., em que discuto os requisitos para ser um escritor ou escritora. Te vejo nesses textos.

