#0071 O que eu aprendi em 2 anos sem consumir álcool
Se eu voltasse no tempo e me encarasse e dissesse que a vida seria muito melhor após 2 anos sem bebidas, com certeza eu sorriria e beberia mais uma cerveja.
Escolhi essa obra que simboliza muito bem algum sentimento que tenho em relação à bebida: não sinto uma vontade individual de beber, é como nesse clube, que existem as regras e você precisa beber e encher o seu copo; é necessário para fazer parte do grupo.
Durante os primeiros meses de abstinência era como se eu sentisse uma vontade individual de beber sozinho, todas as vezes que escutava um sertanejo, vinha o gosto da cerveja na boca. Com o tempo, fui percebendo que era uma relação muito mais da memória em fazer parte dos grupos que celebravam com a cerveja na mão.
Na maior parte das vezes que bebi foi junto com meus amigos, raramente com alguma amiga. Todas as vezes nos permitíamos entrar num fluxo de vulnerabilidade, e a cada gota de cerveja bebida uma palavra de conexão se firmava entre mim, o bar e os meus amigos. Mas como vocês podem ler no texto “#0013 Por que sou um alcoolista?” o problema nunca foi essa parte, essa conexão, essa celebração. Era o depois. Eu não conseguia parar.
Depois os amigos iam embora, e eu ficava comigo. E continuava bebendo, só mais uma e mais uma e mais uma...
O fim nunca chegava em meu horizonte, e no outro dia, na outra semana, era horrível. O corpo sentia o impacto de tanta intensidade, de tanta bebida, de tanta vulnerabilidade.
Quando comecei a me questionar se viver essas experiências era de fato uma escolha, percebi também que a conexão com boa parte dos meus amigos era tão frágil como uma garrafa de cerveja. Naturalmente me afastei. Não queria correr o risco de ir em ambientes que talvez eu não mantivesse o controle. A voz em sua cabeça é constante: é só uma cerveja.
Mas não me afastei completamente, com a ajuda da Kamylla e de meus amigos mais próximos consegui me manter firme e até mesmo ir nesses bares. Agora, com uma cerveja, mas sem álcool, sem o álcool uma cerveja se torna uma cerveja, ela te enche e você fica satisfeito, matando aquela vontade, sede do gosto. E quando você começa a frequentar esses lugares se mantendo sóbrio, e sem nenhuma outra droga, você observa melhor os limites do corpo, então me tornei aquela pessoa que vai embora cedo do rolê. Diminuindo cada vez mais a frequência desses ambientes para outros que não se tornam um fardo, que não me obrigam a ficar com vontade de beber e celebrar sem poder.
Até que veio a Copa e a vontade apertou outra vez, quase me rendi à promessa de que se o Brasil fosse Hexa eu beberia, mas foi quase uma sabotagem, porque o beber é fácil, o difícil é continuar não bebendo. Continuar seguindo frequentando os lugares sem conseguir acessar a vulnerabilidade dos amigos, sem a frágil conexão da garrafa de cerveja, sem entrar nesse mundo de celebração. Responder se eu nunca mais vou beber. Ir contra o grupo, e ser o único sóbrio do ambiente. Entender que a bebida faz mal, machuca, e ver as pessoas que você gosta se torturando com ela, e não poder fazer nada. Saber que o principal benefício da bebida é a conexão humana e que existem tantas outras formas de nos conectarmos. Difícil mesmo é depois que o Gabriel Martinelli faz aquele gol, e fazer parte do todo, comemorando e bebendo.
Felizmente, hoje comemoro meus 2 anos sem beber, conseguindo refletir sobre isso, e muito animado para celebrar, curtir, me entregar ao jogo do Brasil e depois descansar, e na segunda-feira não precisar ir para um hospital por dores de uma ressaca.
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