#0070 Não é sobre futebol, brincadeira é somente sobre futebol
"O jogo de futebol é um teatro da vida, mistura de alegria e tristeza, de razão e emoção, de planejamento e improvisação, de técnica e fantasia." Tostão
Depois de emocionar com um dos jogos mais interessantes que já assisti de copa do mundo (Brasil 2 x 1 Japão); senti uma emoção tão forte que eu quase pensei: nossa, isso aqui não é somente sobre futebol, daí voltei para a realidade me lembrando que a inteligência articial está modificando até o meu modo de pensar, parece que agora buscamos o super significado em tudo, quando, as coisas, são somente as coisas.
Convenhamos que é de uma beleza você olhar para os lados e ver todos os brasileirinhos vestidos de brasileiros, é como se por um breve momento nós conseguíssemos separar as diferenças e torcer para um único objetivo: o hexa.
Eu não sou um conhecedor de futebol, nem das táticas, nem da história, nem de nada. Então meu contato com o nosso Tricampeonato mundial foi por meio da série da Netflix sobre o Tri. Não há como não assitir a série e não fazer alguns paralelos com a contemporaneidade. Do mesmo modo como ocorre hoje, a seleção havia sido fisgada por um grupo específico político. Mas, superamos aquela vez, e certamente vamos conseguir superar esse novo trauma e vestir a camisa da seleção sem medo de, você sabe.
Trouxe no início da crônica a foto da seleção de 1934, numa época que havia brigas torrenciais entre os jogadores profissionais e os amadores. E a seleção, parecia, talvez, ser amadora? Bem, eles viajaram para a Copa que foi na Itália, de navio, e fizeram toda a sua preparação no convés do Navio.
Voltando a contemporaneidade, ontem foi um dia belíssimo, vimos o Brasil jogar com garra, força, talento individual, coletivo, errando, e superando o erro. Vimos também o Paraguai passar pela poderosa Alemanha, além é claro, do Marrocos despachando uma Holanda, chega dá um quentinho no coração: europeus voltando para casa.
E quem não ficou abatido quando o Japão fez aquele gol que atire a primeira pedra. As lágrimas só não vieram aos meus olhos porque o grupo estava comigo, eu olhava para o lado, a Kamylla, minha esposa, abatida, me olhando como quem pede algum consolo: e agora? Vai dar certo? Mas torcer é isso, nós não podemos fazer absolutamente nada, além de mandar a energia e nos sincronizarmos.
Ah, essa tal da sincronia:
“[...] no outono de 2021, foi publicada na revista eNeuro uma pesquisa da Universidade de Tecnologia de Toyohashi (Japão), dirigida por Mohammad Shehata, a qual demonstra que o trabalho em equipe tem uma correlação cerebral, isto é, que a consciência não seria apenas individual, mas também grupal, pois quando várias pessoas dividem uma tarefa que requer uma alta carga emocional, cria-se um estado hipercognitivo que gera uma maior integração da informação entre os cérebros dos indivíduos e uma intensa sincronia neuronal. Quer dizer: os cérebros implicados começam a funcionar da mesma maneira. E, assim, desligam simultaneamente o registro dos estímulos externos, exceto a informação proveniente dos demais indivíduos da equipe, e potencializam a atividade das ondas cerebrais beta e gama (que gerenciam a vigília e a lucidez) no córtex temporal. E o mais extraordinário é que todas essas mudanças são sincronizadas, todos os cérebros compartilham as mesmas oscilações neuronais. Esse trabalho não é o primeiro a respeito da sincronia entre os humanos.” - O perigo de estar lúcida, de Rosa Monteiro.
Só posso deixar o meu relato que naquele memento parecia que eu sentia o mesmo que aqueles jogadores, o desânimo, caramba, levamos esse gol justamente agora que estávamos melhor na partida. Mas então veio o intervalo, e nada como uma boa comida de rabo. Eles voltam mais concentrados, e fazem o que há de melhor: gol.
Casemiro, finalmente, faz sua redenção, depois de um primeiro tempo pavoroso, em que ele divide a bola com um jogador da nossa seleção, faz um gol histórico que nos faz perder a voz, gritando loucamente. O Brasil cresce, nós gritamos como se estivéssemos no estádio, como se nossa mente estivesse sincronizada, como se nosso país fosse um só. **E Vini Júnior dá aquele drible, preciso de um grande jogador, naquela jogada, naquele momento você sente o infinito, sente que não há descrição, não há palavra, é inefável. ** não entendi aqui amor.
Bate na trave.
A trave! Quantas vezes não esbarramos na trave, fazemos tudo certo, e por um vento, sei-lá, uma falta de sorte não marcamos aquele golaço? Já pensou se nós não levássemos tão a sério isso, igual não levamos tão a sério o futebol? A vida é talvez somente a vida.
O coração acelera, a barriga dói em cada ataque do Japão. Medo. Angústia. Agônia. Celebramos juntos, sofremos juntos, amamos juntos, odiamos juntos! E essa é a hora que nós procuramos significados mais profundos, embora, nem sempre, esses significados ocultos existam, uma brincadeira pode ser somente uma brincadeira. Eu poderia apelar nessa crônica e dizer que não é sobre futebol (igual a IA faria), que é sobre os sonhos de uma nação, de um povo que se une para mostrar ao mundo, um gigante que está acordando! Mas a realidade é que o futebol é exatamente isso, é emoção o tempo inteiro, é o jogo que permite que o melhor não vença. É um jogo que precisa do talento, do coletivo, da torcida, e claro, de muita sorte. Futebol é isso. É lindo. E as vezes é somente isso, um milimetro de um goleiro inspirado que pega o chute do Vini Junior e impede um dos gols mais lindos da copa.
O jogo continua, é bola de um lado, bola do outro. A Kamylla me olha como quem diz: não aguento mais. Calma, nós vamos ganhar, no útimo minuto, senti, não foi no último minuto, mas praticamente na última bola, Martinelli deixa o dele, no penúltimo minuto, tirando o peso de uma nação inteira. E é claro que o juiz não encerra o jogo, e são mais 5 minutos de angústia, de medo, de terror. Até que vem o apito final e gritamos, comemoramos, em alguns minutos que se estendem em toda a eternidade de minhas breves memórias: amor, grito e glória.
Abraço minha esposa e naquele momento tudo é lindo, enxugo suas lágrimas, e não precisamos dizer nada, porque todo mundo sabe:
O Brasil voltou.


