#0067 Vale a pena escrever todos os dias?
Esses dias li, Frequência de escrita e as contradições da constância, um texto que discute se vale ou não a pena escrever todos os dias. E uma hora ou outra, picoca na minha linha do tempo pessoas que falam: “você não precisa escrever todos os dias, você deve escrever só quando você quiser”, ou aqueles que dizem que se você não escrever todos os dias ou ter consistência em qualquer projeto que seja, não terás nada.
Sempre encarei a escrita como uma habilidade a ser desenvolvida. Escrevo meus livretos desde que fui alfabetizado, lembro de comprar um caderno e escrever toda uma história, na quarta ou quinta série, apesar de hoje não me lembrar da história. E quando nasceram os sonhos e admiração por grandes escritores como por exemplo Clarice Lispector, comparei meus textos e vi evolução. Desde então foi um trabalho árduo para evoluir a técnica.
Eu não posso negar que já tive e tenho momentos de grande inspiração, em que escrevo um texto, e depois fico pensando: fui eu mesmo que escrevi isso? Eu também notei, dentro de meu processo, que esses momentos de grande inspiração são aumentados quando eles são seguidos de diversos outros textos que geraram muita transpiração.
Em minhas pesquisas, conheci o Instituto de Generalizações Quaisquer (IGQ) nele há um estudo que chegou à conclusão que essa minha experiência individual pode ser generalizada para todos os outros seres humanos: “quanto mais você escrever textos ruins, mais textos excelentes você vai escrever.” Neste estudo, eles analisaram cerca de 2 trilhões de escritores com uma acurácia de 99,99%.
De toda a forma, é complexo que essa experiência, embora comprovada cientificamente por esse instituto, seja factual para os brasileiros, em que boa parte está tentando sobreviver, trabalhando que drena toda a rotina dela, impedindo-a de escrever em momentos de apenas transpiração. Para o pensador João Albert Oinstein é um luxo poder se dedicar de maneira profissional para uma atividade que não é suficiente para pagar as suas contas.
Desde 2019 eu me aventuro nessa nova onda que é da tal liberdade financeira e geográfica, claro que não sou brilhante, por isso, estou junto ao restante dos 99% da população não detentora dos meios de produção. Não podendo ter uma liberdade geográfica e fazer check-list em todos os países do mundo. E demorei (seis anos é bastante tempo, não?) para perceber que talvez esse lugar de ter o tempo ideal e a rotina ideal para escrever, estudar, viver disso, nunca chegaria.
Clarice Lispector, certa vez, me disse que o mundo ideal é diferente do mundo real. No mundo real existem guerras. Há consequências históricas, genocídios, racismo, feminicídio, fome, aquecimento global, tanta desgraça que não dá para enumerar. Neste tal de mundo real acabamos fazendo o que dá pra fazer, e nem sempre o que dá pra fazer é escrever todos os dias ou só quando você tem inspiração.



Há alguns dias tinha até me esquecido como é escrever… e como parar enferruja tá ?! Viver no automático, ou na sobrevivência nos faz sentir menos… e quando quero escrever, por vezes, esqueço que é para esvaziar, mas aí penso: tem que ser incrível, e como não tenho esse tempo para escrever algo incrível, acaba por ficar esquecido. É assim vira um ciclo. Acho que só precisamos pensar menos e escrever mais. Se é que faz sentido.