#0065 Quando é a hora de perder na vida?
ou: o que é vencer na vida?
Outro dia um amigo postou como era doido como não sabemos direito o que é esse tal de vencer na vida. Seria ter bastante dinheiro? Seria ter tempo para viver com as pessoas que amamos? Seria ser ou ter? Filhos? Casa? Carro? Casamento? Plano de Saúde? É claro que eu sozinho não consigo a resposta para uma pergunta tão complexa quanto essa, será que o Machado de Assis saberia dizer? Será que ele diria que o Brás Cubas venceu na vida? O Brás Cubas que passou a vida inteira vivendo de aparências, e seu grande projeto de vida era fazer o Emplastro Brás Cubas para ter o reconhecimento de seus semelhantes e vencer na vida.
As vezes olho para o espelho na esperança de reconhecer aquele reflexo. Na crônica 51 contei sobre a minha relação com o meu emprego, e o quanto é uma relação ambígua de mágoa e gratidão. Não sei ao certo desvendar se existe uma síndrome de estocolmo em que o emprego me violenta, mas eu sinto grato por ter dinheiro para comer. Será que eu venci na vida? Aquele Gustavo com 18 anos que queria sua independência financeira e queria ser rico igual os vampiros do “Beijo do Vampiro” estaria satisfeito com esse homem que completou 33 primaveras?
Aquele Gustavo acreditava que algo fundamental para a vida era ser rico. E diante da impossibilidade de conseguir vencer esse jogo, sente um recentimento que extrapola uma insatisfação constante com a vida. Só que o Gustavo de 33 primaveras é mais consciente das classes, sabe que a história de um país escravocrata em que são necessárias 9 gerações para uma família sair da pobreza, esse Gustavo não acredita que é possível vencer esse jogo. Que só seria possível quebrar o jogo.
Mas parece existir um “vencer” mais sútil. Sinto aquele orgulho de realizar um projeto, de conseguir vencer uma reforma do meu apartamento, e no meu caso, trabalhando para o meu próprio plano de saúde, sinto orgulho de fazer parte do projeto que faz com que 285 mil pessoas sejam cuidadas pela Saúde Suplementar. É claro, que também já me falaram que eu era uma pessoa de muita sorte, e devo concordar, pois mesmo tendo estudado para um concurso, não deixo de acreditar que foi muita sorte conseguir ser aprovado naquela prova com mais de um milhão de outros candidatos. Num país tão violentado como o nosso, conseguir se relacionar de maneira saudável, ter um plano de saúde, ter moradia, conseguir comprar seus alimentos, ter lazer, ter uma vida minimamente digna é um desejo que me parece também um ganho do sentido de vencer.
Todavia, nada disso, pelo menos para o Gustavo de 33 primaveras traz alguma felicidade. Na verdade, muito pelo contrário, sinto medo, medo de que as pessoas que eu ame não tenham mais acesso a isso. Sinto medo de a qualquer momento ser substituído por uma máquina. Sinto medo de ser irrelevante. Sinto tanto medo que acordo todas as noites às 4 da manhã e venho aqui escrever sobre esse medo, para quem sabe esse medo possa passar?
Se o vencer é isso, nós sabemos que estamos todos destinados a tristeza, a angústia e a dor. Só que não quero finalizar essa crônica com essa dor. Não há um dia que eu não me pegue pensando: eu preciso mesmo seguir esse roteiro? Não seguir um roteiro traz o peso do mundo, como se minha existência se tornasse um papel esmagado pela força de ter que construir o próprio caminho com as minhas próprias escolhas. Eu preciso ganhar o que ganho? Não posso dar um passo para traz e ganhar menos? Possuir menos responsabilidades? Voltar a dormir todas as noites? Mas será que o ganhar menos me proporcionará pelo menos uma vida um pouco digna? Com plano de saúde? Alimentação com nutrientes? Lazer? Segurança? Qual será o difícil que eu quero escolher? Parece ser mais fácil aguentar a violência que eu já aguento e já tenho suportado pelos últimos 13 anos, pelo menos parece que é o que se espera de mim. Mas o meu coração pede menos ter e mais ser. Mais conexão. Mais amor. Mais esperança. E para tudo isso eu preciso vencer o medo que o sistema impõem. Navegar por minha própria trilha, mesmo que os galhos rasguem minha perna, que as roupas nã́o sejam confortáveis ou não tenha um barraga de última geração para repousar. Por isso, vou estudar, escrever e amar.


