#0064 A vida não espera

Durante a minha história, eu nunca fui aquele tipo de pessoa fã de bandas, que move céus e montanhas para acompanhar os seus heróis. Sou o tipo de pessoa que celebra de forma contida. E, para piorar, eu julgava quem era assim. Você já julgou algo, digamos, como algo negativo sem ter experimentado esse algo?
Desde o início do ano, Zé tem me acompanhado na jornada de escrita desta newsletter. E a Kamylla, que é a minha esposa, me questionou: por que não vamos ao show dele? Você gosta tanto. Olhamos a agenda dele e nos surpreendemos: ele, com 76 anos, fará dez shows este ano. Infelizmente, no dia em que ele virá à nossa cidade estaremos viajando. Por outro lado, ele fará um show na cidade junina em Belo Horizonte. Olhei para a Kamylla, e ela retribuiu como quem diz “E se nós fôssemos?”. Um dos padrinhos do nosso casamento mora na cidade, e pensamos em juntar o útil ao agradável.
A vida ela é dinâmica demais, para nos permitir que tudo seja simples. Semana passada, minha mãe começou a sentir dores no estômago, procurou uma emergência e foi informada de que precisaria ficar internada. Minha mãe é uma mulher jovem, se chama Odete, tem cabelos pretos, e tem uma resistência à dor que impressiona qualquer um. Ela teve uma pancreatite, e, se você for como eu, que nem se lembra de que temos um pâncreas, a pancreatite é uma inflamação nesse órgão que faz uma pressão no estômago, causando muita dor. Minha mãe se queixava dessa dor como quem reclama de uma dor de barriga comum. Quando os médicos viram os resultados dos exames, disseram que ela precisaria ficar numa UTI. Aceitamos, como bons cidadãos, e ela ficou uma semana numa UTI que, digamos, não era exatamente uma UTI, mas issoficará para outra crônica. Me cobrem para falar um pouco do que sei sobre o mercado da saúde.
Num sábado, minha mãe recebe alta, e no domingo meu padrinho falece. Fiquei triste e fiz o que precisava fazer, ajudando nos trâmites burocráticos para comprar um jazigo onde o seu corpo retornará ao pó. E a vida é assim, na segunda-feirafoi seu sepultamento, na quinta-feira, peguei a estrada para sentir o show do Zé Ramalho. No final, morreremos. Quando penso nisso, não sinto culpa por ter vivido essa experiência, mas sinto uma dor, a dor de constatar que o mundo não vai parar quando for a minha vez.

