#0063 Quando os robôs roubam a nossa inteligência
ou: pequena reflexão para ainda ter consciência

Nós chegamos num ponto que a IA é tão real que é como se nós estivéssemos conversando com uma mente coletiva da humanidade (tipo igual ao seriado Pluribus, se não viu, vale a pena assistir), e, parece que seu cérebro tomou bomba, como se você tivesse agora extremamente mais inteligente. E eu queria que esse meu texto fosse apenas exaltação, que todos os conhecimentos da humanidade estivessem distribuídos de maneira democrática e acessível para todos, mas, não é assim, infelizmente.
É claro que eu falo de um lugar de ilusão também. Um lugar em que eu acredito que existe uma essência infinita vinculada a cada um de nós, que essa essência, algumas culturas a chamam de alma. E essa alma é responsável por vivermos algo dentro desse infinito que alguns chamam de Deus. E quando nós fazemos um texto, de alguma forma estamos construindo uma tradução desse sentimento, e essa tradução se torna um caminho para que outras pessoas cheguem a este lugar. E isso, por mais que sejam precisos os cálculos das máquinas, elas não vão conseguir fazer por sua ausência de matéria. Portanto, em minha ilusão, eu ainda acredito que saberemos diferenciar o texto-máquina do texto-arte, da mesma forma como também conseguimos diferenciar o texto-mercadológico do texto-arte.
Só que a nova ilusão ideológica é a sensação de que você, com o mínimo de esforço possível, consegue ser tão bom quanto Machado de Assis. Sem você ter vivido no século XIX, sem você ter fundado a Academia Brasileira de Letras, e sem ter sido casado com uma única esposa durante toda uma vida.
E falar com a inteligência artificial nos dá a sensação de também se divertir com um brinquedo novo. Vamos lembrar a essência de uma inteligência artificial: ela é um robô que te responde perguntas. Ela também te instrui, no sentido de que pode resumir documentos, te ajudar a configurar um aplicativo de celular, existem muitas possibilidades, e de alguma forma, parece que você vai brincando com ela. Principalmente se você for como eu, meio viciado em tecnologias. Você até mesmo se diverte, e fica com a sensação, cheia de si, porque ela sempre concorda com você, de que você é, usando um termo de minha geração: picadasgaláxias.
Um dia desses conversando com minha esposa, ela me fala da sensação de cansaço de sempre ver as mesmas imagens, sabe? Imagens feitas por robôs, ou seja, sem vida. É chato, e nós que vivemos apreciamos a vida, queríamos robôs para fazer coisas chatas, como limpar, fazer compras, mas colocaram os robôs para fazer a nossa arte, e nós estamos sendo obrigados a aceitar.
E não adianta tentar voltar numa época em que não existiam os robôs. Me lembro de resgatar meu livro, de uma era de robôs, que é o livro: “Decifrando a Leitura”, neste livro, contratei um ser humano para fazer a diagramação dele, que é, pegarem todas as palavras e deixarem de um jeito agradável para ler. Eles escolheram diversas imagens, embora nenhuma delas fosse artística de fato, eles simplesmente pegaram de bancos de imagens, que na época, eram serviços que você pagava um valor para uma empresa, e poderia utilizar qualquer imagem, e eram imagens genéricas, mas ainda humanas, feita por humanos, para uso de humanos. E mesmo neste livro, nesta diagramação, faltou essa essência de arte.
Nós não voltaremos numa era pré-robô outra vez. As imagens de robôs são muito mais precisas. É como a internet, televisão, celulares e carros, uma vez que eles apareceram, eles continuarão por aqui modificando a nossa maneira de interagirmos com o meio. Em relação aos celulares, eles já são como um órgão externo a nós. Não conseguimos mais viver sem eles, sem sentirmos dor, e são dores reais, como dores de cabeça, enjoo, diarreia, entre outros, é como se eles de fato fossem parte da gente. E não existe nada que seja perfeito na vida, se por um lado, por exemplo, os produtos industriais, sabemos agora que são péssimos para nossa saúde, mas eles trouxeram comodidade, não é preciso cozinhar, é fácil, é rápido, é prático, é como fast food, mas tem consequências. O mesmo acontece com o uso desenfreado de robôs. Eu sinto, sinto a minha cabeça se tornando burra. Além de outra coisa super perigosa, ela sempre nos diz que estamos certos, imagina como nos tornaremos cegos e tolos?
No meu dia a dia, pouco a pouco, noto como minha capacidade linguística tem ido para o ralo. É como se nossa capacidade linguística fosse afetada pela máquina. É como se tivesse algo dentro da gente que mostrasse que a parte fundamental para existir linguagem fosse a interação entre dois ou mais seres humanos. Como se a medida que a comunicação entre homem e máquina diminuísse a comunicação entre homem e homem.
E isso tem relação total com o que os robôs se tornaram. Não é como se nós utilizássemos eles para trabalhar para cada um de nós, não. Nós estamos simplesmente pegando as informações que eles geram, e validando ou não. E isso é super chato e cansativo. Depois de uma longa sessão de conversa é como se você tivesse sido esgotado. Como se tivessem pegado um pedaço de você e aprisionado. É desesperador.
Da mesma forma como o sistema foi se adaptando e construindo academias para que possamos fazer exercícios, que antes eram naturais, e agora precisamos fazer de maneira artificiais. Nós vamos necessitar de exercícios para os nossos cérebros. Existem diversas alternativas, como por exemplo, a arte, conversas, jogos... Eles são como esses exercícios que podem nos auxiliar a resistir ao derretimento de nossos cérebros.

