#0062 O seu amigo que não é um artista
ou: se não dedicamos tempo para os nossos, somos o quê?

Não existe um dia que eu não me pergunte se eu sou um cego indo para vala. Será que tudo o que sei é uma ilusão, e minha vida é conduzida para o abismo? Será mesmo que eu deveria estar escrevendo todas as semanas? Será que os meus melhores amigos não lerem meus textos é um sinal que eu deveria parar? É engraçado como que há uma sincronicidade no universo e um tema parecido daquilo que hoje queima no meu peito para ser escrito foi falado por Andressa Tabaczinski. Ela diz uma frase que me pegou muito: “A pior violência é aquela que você concorda”, num vídeo, claro, sobre violência. Vale conhecer o seu perfil no instagram (@anditabaczinski), além de seu livro, que o título já diz muito: “Boas meninas se afogam em silêncio”.
Nossa geração começa a construir as memórias reais da formação do Brasil, digamos que estamos saindo do romantismo, de uma exaltação do índio, para um realismo brutal de como tudo aconteceu. E a realidade bate na gente, que queima nosso peito, arde, revolta, massacra. A nossa história é uma história de uma distopia da mais absurda que poderia existir, não vou me alongar nesse tema, escrevi um ensaio sobre, que está disponível para quem apoia meu trabalho no produto de cartas. Ainda assim, quando pensamos na violência que foi, imagina-se por um momento, chega uma nave alienígena com um fedor que te obriga a vomitar, você pensa: caramba, esse povo tem tecnologia para viajar entre as galáxias e não pode tomar um banhozinho? E logo em seguida, há uma covid 10.0, de cada dez pessoas que você conhece, 2 sobrevivem, no seu caso, você e aquele seu chefe que você detesta, todas as outras pessoas que você conhece morreram. Depois, a nave aprendeu a falar sua língua e diz que tudo que você conhece é ilusão, que lá de onde ela vem é que existe o Deus verdadeiro. Que esse Deus que vive lá com eles criou tudo, e que uma nave veio aqui há muito tempo e trouxe vida à terra. Você acreditaria nessa nave? Agora, vamos imaginar uma outra coisa, imaginemos que o Brasil entra em guerra com a Argentina, e que o Brasil perca, e agora você é levado para trabalhar na China. Me perdoe, mas não conheço nenhuma distopia que seja tão trágica quanto a nossa própria história.
Queria poder trazer algo positivo nesse texto, dizer que esse foi um processo histórico, que ele não existe mais. Queria. Mas a colonização continuou batendo em nossa porta. Eles nos dizem que não sabemos fazer nada. Dizem que o nosso PIX é uma ameaça aos negócios deles. Nada é bom. O que é bom mesmo é ir lá nos Estados Unidos ver o que estão fazendo e aplicar aqui. Vocês sabem que não sou isento do processo, e também sofro. Outro dia mesmo apareceu um vídeo informando várias maneiras de você juntar 100 mil reais (ainda este ano), e eu nem tive forças para pará-lo. E neste vídeo, com muito orgulho, o apresentador disse que nos Estados Unidos umas meninas da geração Z criaram uma marca para o Picles da geração Z, e que combinaram com a capacidade ociosa da indústria para vender, segundo ele; por isso o capitalismo era lindo, por te possibilitar comprar Picles de marca. Antes de prosseguir eu peço perdão para fazer uma tangente, em uma série que estava vendo sobre o potencial curativo de certas substâncias psicoativas; o apresentador diz que é incrível como aquelas substâncias curam (cogumelos, LSD… etc), traz alguns depoimentos de pessoas que se curaram de TOC com cogumelos. Agora eu te pergunto: se fosse verdade, você acha mesmo que isso já não estaria sendo embalado e vendido? As empresas vendem PICLES, imagine se tivesse algo que realmente fosse uma bala de prata e te curasse de qualquer coisa. É claro que seria embalada em um medicamento e vendido! E citei tudo isso, porque é sempre esse movimento, buscamos a validação, seja acadêmica, seja de negócios, seja cultural, sempre lá, com eles, é como se nem existíssemos.
O bom é sempre com quem tem recursos, eu sei que isso é óbvio, afinal vivemos num sistema chamado capitalismo, não é virtudelismo, nem compaixãolismo ou humanismo. Não. É capitalismo. Baseamos nossas relações, todas elas, com base na lógica do ter ou não. E o pior de tudo é que concordamos com essa violência dizendo que não estamos concordando. Não faz sentido? Vem que te explico.
Uma das maiores dificuldades que tive na vida foi conseguir me tornar um adulto funcional. Minha mãe descobriu que estava grávida de mim logo depois de ter terminado o relacionamento com meu pai. Portanto, eles nunca se casaram, e minha mãe nunca se casou com mais ninguém, criando-me sozinha. Claro que na escala de pais ausentes meu pai passou na média. Ele ainda me buscava nos fins de semana, e ia nas reuniões da escola. Chegou a me levar algumas vezes ao hospital, quando eu era maiorzinho. E, como muitos, tive que aprender na base da observação como manter uma casa, já que, minha mãe nunca me explicou nada. E aprendi o básico, levar o lixo para fora, varrer, passar pano, lavar uma garagem, lavar um banheiro, fazer compras, esquentar uma comida. Mas nunca aprendi a cozinhar.
Casei e veio o primeiro choque. Como sobreviver sem cozinhar? E ainda precisava lavar as louças depois de cozinhar (minha mãe sempre cozinhou e lavou as louças). Além disso, nós somos preguiçosos, muito. Deixamos a casa suja até o limite máximo que ela pode aguentar. Minha esposa não. Fight, briga. Período difícil que ela teve muita paciência, teve a paciência de conversar, e até mesmo, me ensinou a cozinhar. Isso transformou minha vida para além de uma simples divisão de tarefas. Me ensinou a pensar num ambiente mais limpo, arrumado, e eficiente. Só que ela poderia ter escolhido não me ensinar nada. Ninguém é obrigado a ensinar alguém. Tem um monte de tutorial no Youtube, eu deveria ter sido mais proativo, ter aprendido sozinho. E ela poderia ter ido embora, uma vez que se eu não tivesse aprendido e mudado minhas atitudes seria impossível a continuidade de nosso relacionamento. E se ela tivesse ido embora eu continuaria a minha vida disfuncional, até conseguir me conectar a alguém que me ensinasse, fosse um vídeo no Youtube ou uma outra pessoa. E talvez eu não encontrasse. E vivesse a vida assim, até, sei-la, tirá-la? Quando nos esvaziamos de significados, nós perdemos a vida. Felizmente, ela escolheu permanecer e cultivar dentro de mim a maior gratidão possível, pois o que ela me ensina todos os dias vai além do relacionamento, é para a minha evolução como ser humano dentro dessa terra.
Uma relação é feita de trocas. E eu entreguei para ela também o meu tesouro. Aquilo que é mais precioso para mim - e se você me acompanha você sabe - é a literatura. Juntos construímos um hábito de deixar o celular de lado, lermos livros excepcionais e multiplicarmos nossos cérebros e nossas existências.
1 + 1 = infinito
Há uma escolha que nós fazemos, e mais uma vez, não estou julgando ser certa ou errada, que é a escolha sobre agir ou dizer. Ela poderia, e estaria completamente certa, dizer que é um absurdo eu não saber todas as coisas que eu deveria saber. Como nós sabemos, vivemos todos dentro do patriarcado, no qual, fui privilegiado nos serviços domésticos, em que, mesmo sendo criado por uma mãe mulher, ela reproduziu o padrão da criação de um menino, que é apenas falar pra estudar, para em algum momento, ele ser pego por uma outra mulher, que iria cuidar dele. E sim, ela estaria completamente certa. Mas quando ela escolhe fazer diferente, me ajudar a construir uma atitude menos machista em meu dia a dia, ela multiplica, e eu posso mudar minha atitude no meu trabalho, corrigir outros homens, fazer a minha parte. Só que é uma escolha que exige trabalho, não é fácil. É mais fácil ser o revolucionário do sofá, postando memes nas redes sociais.
Nós não dizemos que detestamos o capitalismo? Que é o maior absurdo de existir a propriedade privada? Que trabalhar é uma merda? Então, sabe o que é fora do capital? As relações. Mas em vez de, nas oportunidade que temos, aprofundarmos nossas relações, e tenho minhas dúvidas, se escolhemos deliberadamente não agir ou se somos levados a exaustão de não conseguir agir. Por exemplo, é raro, na contemporaneidade, um indivíduo que responda o WhatsApp. É uma ferramenta que exige 10 segundos de interação para que possamos manter uma relação uns com os outros, até conseguirmos nos vermos pessoalmente, e simplesmente não a utilizamos. Mas para responder o trabalho, usamos. E também utilizamos-a para todos os outros algo, menos para o que deveria ser a nossa prioridade, que são as pessoas que amamos. Ou vai ver, estão usando, e eu não sei, eu conto nos dedos quem me responde. Talvez o problema seja eu.
O texto deveria ser sobre como não apoiamos os nossos amigos, mas ele acabou entrando nesse outro nível que é também uma escolha que temos. Não que ninguém seja obrigado a apoiar um amigo artista. Mas todos nós dizemos que detestamos o capitalismo, e não nos entregamos a arte feita por nossos amigos, claro, os amigos, eles nem sempre poderão ser tão bom quanto o nosso artista favorito, nós geralmente nem imaginamos que o que ele faz é a própria arte, e em nosso inconsciente acreditamos que arte boa mesmo é a dos Estados Unidos ou da Europa. E confesso, que isso me pega também, que me machuca também, mas entendo, nem tudo é uma escolha individual. Mas, poderia ser diferente, talvez, somente talvez, se tivessem o nosso apoio, poderiam ter um desenvolvimento de sua arte e consequente de sua vida diferente. E esse nosso ato também é um tipo de violência.

