#0061 Existe algum trabalho não alienado?
ou: até a arte que não é intencional é trabalho

Todas as vezes que vou descascar um alho, eu fico me perguntando, como pode existir uma planta que deixa a comida tão saborosa? Como que nossos ancestrais descobriram e criaram uma planta que deixa tão saboroso o prazer de comer? Mas quem disse que isso é bom? Nós mesmos não teríamos atribuído o valor de bom a tudo aquilo que não era venenoso? Isso me lembra um pouco do nojo, normal, sentirmos nojo de animais peçonhentos, alimentos estragados ou os nossos dejetos. É importante frisar que o atribuir não é feito de maneira individual. É algo coletivo, é como a linguagem.
Mas, será que existe algum sentido? Será que isso que estamos vendo não é uma ilusão coletiva? Será que não estamos acorrentados dentro de nossas próprias percepções sobre a realidade, como no mito da caverna de Platão? Vamos voltar um pouco para a linguagem, ela não seria apenas uma tentativa vã de fazer com que cada um de nós pudesse sentir o que o outro sente? Eu não vou entrar no detalhamento das teorias de linguística sobre a aquisição da linguagem ou sobre sua estrutura. Paremos por um momento e imaginemos que ela foi criada para que nós pudéssemos acessar uns aos outros. E ela, sem dúvida, é a base de todas as nossas outras construções, por ela conseguimos entender a nossa posição no mundo, entender nossos pensamentos, e o significado de nossa existência. Só tem um problema: ela é uma construção cultural criada por nós humanos durante a evolução de nossa espécie.
Como seria a nossa vida sem a linguagem?
O escritor chinês Cixin Liu em sua obra diz que o sentido da humanidade é sobreviver. Sabe quando estacionam um triplex na sua cabeça? E quanto mais eu penso sobre a possibilidade de que o nosso lugar humano fora de sentido é a sobrevivência da espécie, menos tenho certeza das narrativas, cheias de significado, das quais eu acredito. E penso, que talvez, daí venha o medo. Se o local antes de existir um sentido é sobreviver, então, a minha mente cria os significados e medos, estes que me levam a sobreviver, e sobreviver, não é o mesmo que viver.
Então para sobreviver há um sentido em tudo, em qualquer trabalho, não importa se seu trabalho for eticamente questionável, você está sobrevivendo. Mas nós criamos um conceito que vai além; um conceito que é como nós imaginamos que seria uma vida justa para a maior parte dos seres humanos, então muitas das ideologias surgiram dessa ideia. Um lugar em que há uma justiça, seja a ideia de que precisamos trabalhar para construir um paraíso na terra para os seres humanos, sem injustiças e preconceitos. Da ausência de sentido de tudo, eu busco esse sentido, em pautar a minha existência, para buscar essa utopia.
Mas eu sei também que existe um problema nisso. As ideias de como esse mundo seria varia de maneira individual e não coletiva. Nós até pensamos que podemos escolher o melhor para todas as pessoas, só que é como uma inteligência artificial, pense que a forma como o mundo deveria ser é um modelo de linguagem, como o Claude, mas, ele não é determinístico, ou seja, ele dará uma resposta diferente para cada pergunta, mesmo que seja parecida. Essa é a forma individual como pensamos um mundo melhor.
E até mesmo nisso eu me pego pensando: existe alguma diferença mesmo em uma vida que luta por um mundo melhor e uma vida que só a vive? Se cada uma dessas vidas for coerente com os conceitos que ela aprendeu, ela se sentirá bem. É como se alguém que passou uma vida consumindo conteúdos sobre como o mundo é uma merda, sua existência só fizesse sentido se ela lutasse, até mesmo com a sua vida, para um mundo diferente. Mesmo que o mundo diferente não seja o que as outras pessoas desejam, já que é impossível o mundo que ela imaginou, das cláusulas que ela luta, ser o mundo que os outros vão viver.
É claro que pensar nisso nos coloca num lugar de analisar isso sem a lente dos algozes e das vítimas. E pensar assim, entra uma linha muito tênue entre o conformismo de como o mundo é. E dado que o mundo já está posto quando nascemos, podemos acabar só piorando o mundo. Só que daí voltamos para o local biológico fora de sentido da espécie humana. Sobreviver. Para a espécie não importa se alguns se fodem e poucos estão bem. Para a espécie só importa sobreviver e a sobrevivência é completamente ausente de significado. Não importando se você faz uma arte ou se você, simplesmente, gira as engrenagens do sistema.
Então nós temos uma coisa bem concreta que é a nossa sobrevivência como espécie. E agora entra a minha parte metafísica, pois eu acredito que essa sobrevivência não seja completamente aleatória, nós temos uma linha que nos liga. E essa linha é acessada quando nós nos conectamos uns aos outros. Às vezes por arte. Outra vez, parafraseando algo que talvez você conheça, que é sempre quando se tem mais de uma pessoa conversando, em busca do inútil, ou seja, simplesmente por estar ali. É como se nós ativássemos nossas conexões e acessássemos esses lugares. E observe, isso tem relação com estar junto com as pessoas e com a arte. Não tem relação com a nossa produção ou luta de mundo, é um outro lugar. Assim, eu vejo que não existe diferença no trabalho, seja um trabalho alienado ou não alienado. Trabalho é trabalho.
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