#0060 Quanto tempo falta para nossas cabeças estarem expostas assim?
ou: a dor necessária para produzir arte

Eu estava procurando uma imagem para falar da dificuldade para produzir arte, quando essa imagem me pegou. Me pegou muito forte. Ela é do Tomas Castelazo e está disponível para uso, desde que você o cite. Uma imagem forte dessas antes da era da inteligência artificial, e eu precisei começar o texto por ela, para falar desse tema que tanto postergo, mas que é necessário.
Se você me acompanha, já sabe que não faz sentido para mim utilizar a IA para fazer o meu ofício principal, que é o de colocar a minha perspectiva nos textos por meio das palavras. E minha relação com essa tecnologia é ambígua e difícil definir. Se por um lado me recuso a deixá-la escrever por mim, gosto de utilizá-la para me ajudar com designer, com códigos, com resumos e com pesquisa. Mesmo que eu saiba que parte de seu treinamento foi feito com material não autorizado, portanto, com textos roubados. Além disso, também foi utilizado trabalho análogo a escravidão para rotularem os dados e ela conseguir ser o que é.
É claro que nem tudo é igual, então se por um lado temos esse uso não ético, os abusos exercidos por parte das gigantes, temos também o lado das universidades que trouxeram modelos, não de última geração, mas talvez, mais que suficientes para o nosso uso. E vem a parte principal, que alguns críticos já levantam sobre os indícios de vícios no texto feito por IA, que é o bendito: não é sobre A, é sobre B.
Vamos nos lembrar como é feito o treinamento da IA. As empresas pegam os dados (entenda por dado todo o conteúdo publicado na internet e até mesmo fora dela). A Antropic, empresa do Claude Code, fez um acordo com as editoras para pagar danos materiais, uma vez que foi descoberto um galpão, onde eles digitalizavam diversos livros físicos para fazer treinamento de suas IA, então, processam os textos dos livros. Isso é feito em chips de última geração e gastam-se bilhões de dólares, e milhares de litros de água para resfriarem esses chips durante esse treinamento. Depois disso, testam e refinam, mas é basicamente esse o treinamento.
É como se eles pegassem o conhecimento escrito da humanidade e transformassem nessas máquinas que agora fazem parte de nossas vidas. Esses modelos não pensam, não como nós. De maneira muito simplória, é como se eles fizessem cálculos matemáticos para saber as próximas palavras e continuarem uma conversa. Portanto, é possível afirmar que eles não produzem nada novo, tudo o que trazem é textos inéditos, novas maneiras de falar a mesma coisa que já foi dita milhares de vezes, logo a sua técnica é a média de todos os autores.
E meu texto não é sobre isso. É sobre como nós somos influenciados por tudo. E aqui estou eu escrevendo de maneira parecida com o robô, pois se todos agora submetem seus textos e transformam eles com a IA, em algum nível, os textos serão todos iguais. E qualquer tentativa de escrever algo diferente, tem grandes chances de ser a mesma coisa. E nenhum de nós, teve qualquer escolha. Podem argumentar: é só não usar IA. Mas de que adianta não usar a IA se todos estão utilizando? Por acaso temos escolha de não ser da humanidade? De não sermos homens e mulheres?
E observar isso é como ver o cristal sendo rompido. Porque não é apenas a IA que fica impregnada desse vício, mas o nosso próprio ato de escrever, em que nós vamos organizando as ideias, numa tentativa vã de gerar uma conexão e uma surpresa. Mais uma vez, farei uso desse recurso, porque não é só sobre a IA. Mas é sobre tudo.
Foi assim com as redes sociais, com os smartphones, com os telefones, com a revolução industrial, com a revolução agrícola. Sabe o único lugar que resistiu a todas essas mudanças? Foi o lugar da arte. Longe de mim ter a pretensão de tentar dizer o significado de uma arte, não quero reduzir a arte a qualquer definição. Mas sei que o processo de produzir arte é o processo de resistir a harmonização humana. Portanto, sim, é sobre a dificuldade de produzir arte: ela exige toda a nossa alma.
Se esses textos fazem sentido para você, considere conhecer o projeto:

