#0059 A eterna busca pela bala de prata
ou: por que você precisa de mais?
O Cambista e sua Mulher, de Quentin Matsys (1514)
Esses dias eu assisti uma palestra da Denise Fraga intitulada de: “Conexões Humanas em tempos digitais” em que ela mostra que possuímos um instinto de solidariedade. É interessante que ela utiliza um exemplo que quebra qualquer argumento: se alguém cair do seu lado, instintivamente você vai tentar segurar a pessoa. Mas é claro que isso está sendo colocado em cheque, e ela nos faz refletir: em qual momento autorizamos nos tornarmos o que somos como sociedade contemporânea? Quando andamos e vemos uma pessoa em situação de rua deitada num papelão, desativamos nosso instinto de solidariedade e ativamos o modo sobrevivência, imagina, se ele tiver tendo um infarto? Só perceberemos quando o corpo morto começar a feder. Ninguém, que não seja da abordagem social, vai perguntar para aquele ser humano se ele precisa de ajuda, se está tudo bem. Agora é claro, que se fosse uma pessoa de posses, marcada por possuir alguns objetos de marca, como relógio, tênis, blusa, calça, o instinto sai da área da suspensão e volta a agir. Certamente você se disporia a ajudar. Escutar isso doeu, me questionei, quando que me perdi? Sem ao menos nem me ver indo embora.
Na figura: “O cambista e sua mulher”, vemos um livro de orações, que tal considerarmos ele, hoje, como representação de nossa espiritualidade? Enquanto a mulher ‘lê’, o cambista conta o dinheiro e nós, como animais famintos atraídos por uma ração, olhamos para os bens e não para o ser. Eu tenho mergulhado dentro de uma água na busca, de talvez, no fundo dela, eu conseguir me ver. É claro que isso não é um mergulho simples, pois antes de mergulhar eu procuro os melhores cilindros, os melhores professores, as melhores roupas, e quando dou por mim, estou pesquisando tantas outras coisas, menos colocando o meu corpo na água.
E isso é algo que parece que transpassa todas as pessoas, como muito bem coloca Denise, nós falhamos miseravelmente quando alguém que atinge o sucesso e não é necessariamente feliz. Isso explodiu minha mente, como sucesso não é sinônimo de felicidade? Qual é a única coisa em si mesma que buscamos na vida, se não a tal da felicidade? E algo que deveria ser óbvio para cada um de nós, é que a felicidade só existe numa comunidade. Não me parece ser possível ser feliz sozinho. Será por isso que sucesso individual traz alegria, conforto, e não felicidade? Quantas pessoas conhecemos que dedicam a vida na busca pela bala de prata que vai resolver todas as suas questões, dinheiro, e quando conquistam se deparam com o vazio? O último que me deparei foi ao ler a biografia do Chorão, escrita por alguém que esteve com ele em todos os momentos, sua musa inspiradora Graziele Soares no livro: “Nossa história de amor”. Só que ainda assim, seguimos como se fosse a única coisa possível, eu, hoje mesmo, passei algumas horas do meu dia pensando: “como eu posso ganhar mais dinheiro?”, e é interessante notar que se eu ganhasse mais dinheiro eu faria exatamente o mesmo que já faço hoje, talvez, me dedicando com um pouco mais de tempo, só que porque não fazer o que eu já desejo hoje, em vez de me dedicar a ter mais dinheiro para então fazer o que eu desejo? É preciso chamar sua atenção para algo muito importante, por mais óbvio que também seja, afinal o dinheiro é importante, sabemos que sua ausência traz infelicidade, fome, morte, e incontáveis males. Não obstante, também é verdade que quando ele vem, após a quantidade necessária para uma subsistência sólida, ele não agrega mais felicidade.
E mesmo dizendo isso, muitas vezes caí no dilema: como ganhar mais dinheiro. Mas eu ganho mal? Não. É óbvio que não sou rico, e que considero que meu salário é tipo um mínimo que todos deveriam ter. Só que nós, se não nos vigiarmos o tempo todo, acabamos entrando nessa maluquice de querer sempre mais e mais. O que eu poderia fazer ganhando mais dinheiro? Simplesmente gastar mais dinheiro. Comprar mais coisas. Seria ruim? É claro que não. Mas fazer o que é preciso para chegar a este resultado — de ganhar mais dinheiro — não é algo que eu desejo, eu desejo continuar a minha busca pelo inútil.
Sempre existe uma bala de prata da vez que vai responder aquela nossa intrigante pergunta de como ganhar mais dinheiro. Na década de 1990 a bala de prata foi a novíssima Internet, na década de 2000 foram os blogs, o início do compartilhamento de informações na internet, na década de 2010 é claro, o smartphone e nossas redes sociais. E agora? É a inteligência artificial. Não sei se você acompanhou, mas o Elon Musk — se você não conhece é o bilionário mais rico da Terra — disse que ninguém precisa se preocupar com a aposentadoria, pois a IA vai produzir tudo. E todos nós seremos ricos. Será?
É no mínimo cômico que nós estejamos treinando os robôs que vão nos substituir. Eu já me peguei, com a ajuda da IA é claro, tentando produzir um sistema de IA que fizesse exatamente os meus textos, com meus tons, para ser eu, para replicar e escalar meus conteúdos. Para? Ganhar mais? Ter fama? Vi um professor cuidando de algo parecido, fazendo um agente para tirar as dúvidas dos alunos dele, ou seja, substituí-lo, e parece que nós estamos comprando isso e essas ideias. Qual a última vez que você comprou um curso humano?
Somos os zumbis das telas que talvez estejamos perdendo a capacidade que nos diferencia dos animais, o trabalho criativo, e pra esse trabalho existir é necessário a linguagem. Não estamos mais falando uns com os outros, já reparou? Você entra num elevador, estão todos olhando para a tela. Hoje, peguei um metrô, e tive um susto que quase nem soube como reagir, uma pessoa pediu para segurar a minha mochila. É como se não esperássemos mais gentilezas, apenas o fim trágico de tudo. Mas isso é humano?
Voltando mais uma vez a palestra da Denise, a qual ela fala que na nossa contemporaneidade gentileza é arma. Isso me pegou, pois sempre tentei me construir uma pessoa gentil. Quando que eu parei de sorrir quando alguém me pede ajuda? É um processo de desumanização tão sutil, e como ela mVuito bem ressalta, sem a nossa autorização, que quando nós vemos, estamos apertando o botão para fechar o elevador só para não conversar com mais ninguém.
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