#0058 O jogo que não é escrito
ou: o dia que eu entendi que não queria mais jogar o jogo
Snow Storm: Steam-Boat off a Harbour’s Mouth, pintada em 1842 pelo mestre britânico J.M.W. Turner.
Esses dias estava lendo alguns textos que recebi numa outra época da vida. Será que você consegue imaginar uma era em que não existiam ainda Smartphones? Apesar de ter sido há 16 anos, é como se tivesse ocorrido em uma outra vida. Lembro-me, como se fosse hoje, de uma colega que tinha dois sonhos: cursar medicina e comprar um iPhone, eu ainda jovem, e muito pobre, sem internet em casa, sem acesso a nada além de uma televisão, nem sabia o que era um iPhone. Ela me disse que Deus não escreve certo por linhas tortas, a nossa percepção que não consegue entender os planos de Deus. Como tantas outras amizades, perdi o contato com ela, até por meio das redes sociais, que cada vez mais são menos sociais, voltei a ver fotos dela, fiquei feliz, que pela qualidade, deveriam ser feitas por um iPhone, além do mais importante, ela ter conseguido se tornar médica. Lembrar-me dessa história me faz refletir que nunca encontrei alguém que não soubesse a solução para os problemas, como ela por exemplo, e por mais que não pareça, mas acreditar que nossas ações não modificam o curso de nossa própria vida, acreditando que há um destino escolhido por Deus, argumentando que nós não entendemos o que Ele quer de nós, é também uma solução para os problemas do mundo. E, tenho certeza que você também já se encontrou com pessoas que são geniais e sabem a solução para os problemas do mundo, mesmo sem serem deuses, sendo apenas seres humanos com a própria perspectiva limitada. Sim, você já se encontrou com esse tipo de sujeito genial.
Isso tudo faz parte do jogo. Existe o jogo daqueles que buscam alívio para a dor humana na esperança que existe algo que sabe de todas as coisas. Há aqueles que acreditam que a solução para o jogo é mudar uma regra. Não podemos esquecer dos revoltados, aqueles que querem destruir o tabuleiro para reiniciar o jogo. Ainda existem aqueles que dizem que não há vencedores nem perdedores, que o importante é jogar. Eu talvez me encaixo nesse grupo, já que sinto que o objetivo de existir aqui é jogar o jogo.
Existe um jogo, e o jogo mais simples de nós entendermos é o jogo do conforto. Nós que somos da geração 1980~2000 fomos criados num ambiente analógico e nos tornamos a última geração que se lembra como era a vida antes da informatização do mundo, e tem familiaridade com a tecnologia. Estou citando a nossa geração para conversar sobre a ideologia que sempre escutei: “filho, você precisa estudar para ser alguém na vida”. E claro, que ser alguém na vida se perpassa por cursar: direito, engenharia ou medicina. Ah, medicina. Embora também existisse um quarto caminho, que era terminar o ensino médio e já se dedicar a estudar para concurso, que foi o que eu acabei fazendo, e depois cursar o que você quiser. Escrevendo hoje, lembro-me dos “conselhos” que dei ao jovem aprendiz lá da firma: “curse Engenharia de Software pois tem uma concorrência menor que Ciência da Computação; e muito mais vagas, quanto mais vagas, melhor para você conseguir passar. Entendo que hoje ao dar algum conselho tento pensar nos profissionais ou carreiras que são mais valorizadas no mercado, só que talvez esses cursos sejam os próximos a se tornarem saturados… talvez eu não devesse ficar calado? Talvez eu não seja tão diferente assim dos meus pais… que conselhos será que eu daria aos meus filhos?
E isso é um jogo que estamos todos jogando. Que no mínimo queremos ser melhores que quando entramos. Vai me dizer que às vezes você não se compara com os seus colegas do Ensino Médio? De faculdade? Eles também fazem isso. Sabe o que vocês têm em comum? A sensação de que estão perdendo esse jogo. Lembro-me de um amigo, felizmente, nós já evoluímos a ponto de conseguirmos compartilhar os nossos rendimentos mensais, e tentamos nos ajudar para conseguirmos evoluir juntos; esse amigo desejava exatamente o meu emprego, com a estabilidade que ele me permite, a flexibilidade de horário e a remuneração e benefícios. Por outro lado, eu desejava ser professor igual a ele. Mas talvez no fundo, nenhum de nós deseja a vida do outro, mas a forma como a vida coloca insatisfação nas nossas formas de viver, e assim faz com que todos nós sempre tenhamos a sensação de estar perdendo o jogo. Vem então os golpes.
Evento gratuito, nos dias 5, 7 e 9 de algum mês. No final do evento você descobre que a sua vida é uma merda, que não é sua culpa, você apenas ainda não tinha encontrado o método inovador daquele guru. A dor desses eventos ainda me machuca. Mas, antes de existirem tais eventos, existia já o crédito. Um vizinho trocava de carro, logo todos ao seu redor se endividavam e trocavam de carro também, e assim a máquina ia girando. “Amor por Contrato”, é um filme de 2009 que retrata isso. E vocês sabem que eu já caí nessa mesma armadilha, tentando criar um produto para resolver uma dor, algo útil, algo que fosse me transformar em alguém rico, é quase uma piada pensar que eu pensei isso.
Eu mergulhei muito fundo e estudei tudo sobre marketing, redes sociais, anúncios, automações, tecnologia da informação e claro IA. E cansei. Porque sempre volto ao que faz o coração pulsar, que é a descrição da forma como eu vejo a minha alma por meio das palavras escritas em língua portuguesa. E isso só pode ser feito por mim. Mas comecei a perceber uma dor, um desespero, uma falta de esperança tanto em mim, quanto em meus amigos, e criei também um produto, que é “Cartas da busca do Inútil”. Só que como o próprio nome já diz, ele é inútil. Para o sistema que vivemos é completamente inútil. Imagina você receber uma carta escrita por mim, em dia incerto, para ler. E pior, não vai te ensinar nada. Essa é a beleza da literatura. Ela não nos ensina nada. Mas nós aprendemos muito com ela.
Essa seria a parte do texto que eu declararia urgência e falaria que o carrinho iria fechar ou sei-lá. Mas é isso, as cartas são crônicas exclusivas, sem urgência, apenas algo manual para te tirar, nem que seja um pouco, dessa busca por vencer o jogo que deveria ser apenas divertido.


