#0057 Quando é a hora de pedir demissão?
ou: como lidar com o assédio moral organizacional
A Transformação de Licaão. Hendrick Goltzius (1589)
Se você se desse ao trabalho de pesquisar sobre essa imagem, veria que ela é a representação de um mito grego sobre Licaão, um antigo rei que era muito cruel, este rei recebe a visita de um viajante que ele desconfia ser um Deus, então para testar a onisciência do viajante serve comida humana. E se você reparar bem, na imagem, existe um pé na mesa. Lógico que Zeus, que era o viajante, descobriu, logo destruiu o palácio e ainda transformou o rei em um lobo, quando ele tentou fugir. Volte e olhe para a imagem, e veja o lobo tentando fugir. Agora, talvez você se questione, qual a relação disso com o título do texto? Mas, quando trabalhamos, não estamos abrindo mão de nosso tempo? Logo nossa vida, ou seja, nosso corpo, por dinheiro? É quase como se fôssemos servidos em mesas de jantares para os viajantes, mas tais viajantes não são deuses, são apenas viajantes. Todavia, o que realmente me pegou dessa imagem é o homem perdendo a humanidade, é ele sendo transformado num animal, como se toda nossa troca contemporânea fosse a perda de nossa própria humanidade. Apesar de renascentista, me pareceu tão contemporânea essa imagem.
Um dia desses assisti a uma palestra da doutora Ana Magnólia Mendes sobre assédio no trabalho corporativo e no trabalho de maneira geral. Nesta palestra, ela disse coisas que nunca vou me esquecer, que o assédio muitas vezes, em boa partes das vezes, ele não vem do seu chefe imediato, não. E na minha cabeça era apenas assim. Eu nunca tinha associado que uma distribuição não justa das tarefas é um assédio. Por exemplo, já tive um chefe muito ‘bonzinho’; ele era compreensivo com todos. Ele tinha muitos e muitos anos de empresa, então ele não mexia com aqueles colegas antigos que só faziam uma presença no trabalho e iam embora. Em sua redistribuição de tarefas premiava aqueles que mais entregavam, com mais trabalho. E como ele era assim, compreensivo, escutava, democrático, fazia com que você se sentisse um merda por não cumprir suas tarefas, só que suas tarefas eram as suas e mais de duas pessoas. Esse é um tipo de assédio. Um assédio que te paralisa, por que, como você vai identificar que é um assédio, logo de uma pessoa tão querida e adorada por todos? É mais fácil quando o chefe é estúpido, humilha a todos, e logo, todos começam a distribuir atestados de CID F.
É claro que não existe apenas esse tipo de assédio. Aquela palestra foi muito esclarecedora, pois a doutora explicou também que existe o assédio que vem de baixo. Como assim? Pessoas que não são hierarquicamente superiores a você, pelo contrário, elas estão ou em uma estrutura que segue o seu planejamento, ou estão sob sua gestão. E sim, é possível existir assediadores nessas posições, o que é muito difícil de você identificar, quase impossível, e para provar, é também quase impossível. Como o subordinado pode assediar o ‘superior’? Não é só ‘o superior’ se impor ou conversar, ou de fato mandar? Por exemplo, onde eu trabalho existe uma unidade que define as regras e estratégias, e uma outra que executa no organograma da empresa; a primeira unidade que cria regras e estratégias e a outra manda na unidade que executa. Só que dentro de cada uma delas há gerentes e técnicos, então é muito fácil de observar que pode existir o assédio entre o subordinado gerente, ou até mesmo, os colegas técnicos que pressionam para soluções. Como identificar? É preciso olhar para o espelho: você sofre? Se estão colocando uma demanda que é impossível que você cumpra e personalizam as cobranças é porque é assédio. Os novos assédios vem numa linguagem de inclusão, neutra, politicamente correta, mas nas entrelinhas, nunca foram tão violentos como são agora.
Annnnnnnnnnnnnnnnnnsiedade
Todos estão ansiosos.
T
O
D
O
S
Quem tem acesso está conseguindo seus diagnósticos, e tomando seus remédios. Outros não são neurodivergentes. Mas não há dúvidas que as redes sociais e o smartphone destruíram nossa concentração e aumentaram nossa ansiedade. Quando eu comecei a trabalhar numa grande empresa, lá em 2013, costumava atender clientes que esperavam 3/4 horas por um atendimento. Em 2019, a espera era de 40 minutos, mas os clientes eram mais nervosos e mais agoniados que antes. Isso contagiou as empresas. Você tem paciência de esperar alguma solução? Por exemplo, fazer um óculos. Aumentei meu grau e fui atrás, esperei o fim de semana. E quando fiz os orçamentos, achei até absurdo ter que esperar 7 dias úteis para fazer um óculos. O que há que não conseguimos esperar? Atender no prazo, ser especial, encantar o cliente, fazer diferente, isso tudo sobra para quem mesmo? Então nós entramos em outro tipo de assédio, o tal do organizacional.
Assédio organizacional é quando a porra toda já foi contaminada. E toda vez que converso com meus amigos, noto algo de comum, é como se todas as instituições tivessem assim. Se você trabalha, você sabe. Falta gente. Falta processo. Falta tudo. Lembro-me desse meu emprego, em que nós tínhamos 150 mil clientes, e éramos 40 empregados. Cheio de processos manuais, quase nenhuma automatização. E era preciso dar conta. Todos os dias a agência abria às 11h, mas os clientes chegavam por volta das 8 da manhã e esperavam, esperavam para serem atendidos. E todos os dias tudo se repetia: faltavam pessoas e aumentavam os processos. Treinar gente para trabalhar ninguém quer, mas comprar a IA para reduzir o custo e aumentar o lucro, estão todos empolgados.
A promessa de um futuro melhor, outrora centrada na democratização tecnológica, transformou-se em uma corrida armamentista de aquisições e parcerias geopolíticas. Enquanto líderes de grandes laboratórios pregam, como profetas, que “todo mundo agora é um programador” e que o código tradicional está com os dias contados, a OpenAI moveu-se agressivamente para absorver o ecossistema que diz estar superando. Recentemente, a empresa adquiriu a Astral (desenvolvedora do uv, a ferramenta de gerenciamento de pacotes que revolucionou o Python) e integrou a equipe do OpenClaw (projeto anteriormente conhecido como ClawdBot), sinalizando que, para eliminar os programadores, a OpenAI precisa primeiro obter as melhores ferramentas que eles utilizam. Nesta dança de cadeiras, a Anthropic (criadora do Claude) não ficou para trás, adquirindo a Bun para otimizar a performance do Claude Code e fortalecer sua infraestrutura de execução. No entanto, o embate mais crítico ocorre na esfera militar: após a Anthropic se recusar a permitir o uso irrestrito de seus modelos para vigilância doméstica e armas autônomas — sendo, por isso, rotulada pelo governo dos EUA como um “risco à cadeia de suprimentos” — a OpenAI preencheu essa lacuna. Através de um acordo estratégico com o Departamento de Defesa (via AWS), a OpenAI agora integra suas redes classificadas, estabelecendo diretrizes próprias sobre o uso da força e supervisão humana em sistemas de defesa.
O parágrafo anterior foi feito por uma IA, você como meu leitor, notou que existia alguma diferença entre o que eu costumo escrever e o que foi escrito pela IA? É fascinante e assustador ao mesmo tempo. Mas não é nada demais, num sentido de que não seja resultado de anos e mais anos com o trabalho de diversos cientistas e claro, o roubo do trabalho intelectual de diversos escritores, não houve autorização de ninguém para o treinamento da inteligência artificial. É importante sabermos que o texto da IA não é um texto que é protegido por direitos autorais, ele é um texto público. E se você o utiliza, você se responsabiliza pelo conteúdo gerado. Mas sendo sincero, nós não ligamos se um sistema foi feito com o código gerado por uma IA ou se foi feito por um humano, desde que esse sistema faça o PIX. Dá mesma forma não ligamos se um celular foi feito pelos braços humanos ou por robôs, sabemos hoje ser impossível um celular ser feito por um ser humano. Embora nós ligamos para o desenho do celular, ou melhor para o designer. E se nós não ligamos, os clientes também não ligam muito se estão sendo atendidos por um humano ou se estão sendo atendidos por uma máquina. Só querem resolver o problema, não é? E alguma parte de você sabe disso. E parece que estamos presos dentro de uma gaiola que é impossível sair, se não trabalharmos para movermos a engrenagem, as mãos do mercado não colocam ração e água na gaiola.
De verdade, eu acredito que nós sabemos disso. Sabe quando você sente aquela dor e vontade de morrer quando você é explorado até a última gota de suor de um dia de vida seu, para fazer algo que é questão de tempo para uma máquina fazer e ninguém ligar para isso? Você sabe. É diferente quando você lê um texto meu, você sabe que sou eu, você sabe que dediquei muito tempo da minha vida para isso, e você sabe que as experiências que são compartilhadas também foram vividas por você. Esse é um trabalho intelectual. Os outros trabalhos que parecem ser intelectuais, mas aos poucos estão sendo substituídos pela IA, na verdade, são apenas trabalho de escritório.
E será mesmo que todos nós precisamos ‘vencer’ o jogo do sistema? Morar perto do centro, ganhar rios de dinheiro, se destacar dentro da sua classe social, viajar... O jogo é infinito, sempre que você, sozinho, com seu mérito, vence um nível, aparecem infinitos níveis. Infinitos níveis. Essa pressão para você vencer esse jogo é sua? Se você pudesse, você escolheria jogar esse jogo? Por que você joga esse jogo? Não estou aqui falando do jogo necessário para a sobrevivência, mas sempre que conseguimos a nossa ração, queremos mais, mas será que esse querer é o nosso querer? Queremos mesmo a ração premium? Outro dia fui a uma ótica para trocar minha lente, meu grau aumentou, mas ainda é um grau mínimo. E me peguei desejando uma lente importada, que custava 8 vezes o valor da lente mais simples. É normal, não é? Nós desejamos o melhor para nós, para os nossos olhos. Sim, é normal. Mas será que meus olhos notariam a diferença da lente simples nacional para a importada? Quando eu experimentei a importada super blaster, pica das galáxias, sinceramente, não vi diferença nenhuma.
E quanto mais nós subimos de nível, o jogo do trabalho fica mais difícil. É mais responsabilidade. É maior a pressão. É maior o sofrimento. É muito doido pensar que muitas vezes nos inundamos de trabalho para conseguir comprar remédios para suportar a dor de fazer aquele trabalho.
Suportar a dor do trabalho.
Então a solução é simplesmente sair e pedir demissão? Queria eu ter as respostas, não sei nem a resposta para a minha vida, mas eu sei que também não posso agir de maneira egoísta e fazer simplesmente o que é prazeroso para mim. O trabalho envolve responsabilidades, e quando estamos imersos na responsabilidade não podemos simplesmente desistir ou sair. O que não significa que devemos aceitar tudo. Devemos também refletir: será que a angústia que aquilo nos traz é real? Se a pressão vem e você consegue agir, então você deveria agir e resolver. Se não é possível que você resolva, então é porque não é para ser sua responsabilidade. Lembre-se, a IA chegou e ela veio para reduzir o custo, fazer você produzir muito mais por muito menos.
Só que é impossível para a IA criar algo. Ainda é preciso o humano. Existe uma diferença entre criar e produzir algo inédito. O sistema nos vende criação como algo inédito. Por exemplo, os computadores da Apple, todos já existiram, não foram uma criação, foi apenas a produção de algo inédito, o computador com o designer, o marketing e o público específico. A mesma coisa do Iphone, e tantos outros produtos. Então para o futuro desse sistema, a IA talvez nade de braçadas e nos faça engolir goela a baixo várias ‘criações’. Queria ter algo animador para dizer, mas o que posso dizer é que a IA não trará menos trabalho, muito pelo contrário, serão mais produtos inúteis, mais consumo, mais manutenção, mais lixo, mais lixo, mais lixo. E tudo isso para quê? Se o que desejamos de verdade é estarmos ao lado uns dos outros? Dançar, ler, jogar, amar... A vida seria muito mais simples sem consumir e comprar. E obviamente você precisará trabalhar mais para consumir mais essas coisas.
É legal ter um celular? É legal. Mas depois que tirei o Instagram dele, sinto que ele não me faz falta. Olhando para a minha vida hoje, eu poderia muito bem viver até mesmo sem WhatsApp, poderia me comunicar com minha esposa por ligação. Poderia, se fôssemos menos ansiosos nos comunicar apenas de dia e de noite. Não precisaríamos do celular. O que de fato ele agregou? Além de deixar minha mão machucada? E para ele existir, quanto trabalho foi preciso?
Querem que cada um de nós façamos ainda mais trabalho não humano, como diria Marx, trabalho alienado. Mas, de alguma forma, dentro de nós existe a revolta, sabemos que é uma injustiça ver todo o nosso esforço, nosso trabalho, sendo extorquido para o lucro dos herdeiros. Quem trabalha não tem tempo para viver. É hora de pedir demissão?


