#0056 A violência nossa de cada dia
ou: no lar, na cidade e no trabalho
“Solitude, loneliness in snow storm” por Vyacheslav Argenberg / CC BY 4.0
É sempre assustador olhar para as estatísticas de assassinatos ocorridos no Brasil, e, também, de países que estão em guerra. Mas somos pacíficos. E me questiono, quase que constantemente: há lugar para mim num lugar como esse? Eu, um fugitivo de conflitos, consequentemente de toda a violência no qual somos inseridos.
Não é cabível para mim, entender a dor que é. Se fizéssemos a média diária de feminicídios seriam mais de 4 (No Brasil, média do ano de 2024). Quantas histórias foram silenciadas? Vivemos numa bolha, que é ameaçada pela agulha, em todos os instantes.
É claro que as nossas cidades não são seguras. Nós homens, além de matarmos as mulheres, matamo-nos uns aos outros. É absurdo a quantidade de crimes hediondos de nosso país. E nosso país, é um país pacífico. A última guerra que nos envolvemos foi contra o Paraguai. Mas internamente há poderes paralelos. Vocês vivem por aqui. Vocês sabem o que é o Brasil.
A violência que vou tratar neste texto, felizmente não é tão extrema quanto a retirada de uma vida, nem é possível de comparar, mas de fato, é uma violência. Por exemplo, a violência do barulho. Nós simplesmente não conseguimos respeitar uns aos outros e cumprir a lei, a lei do silêncio que deveria existir. Aqui temos alguns vizinhos que amam celebrar, nada contra, mas eu não deveria ser obrigado a ouvir suas conversas, suas músicas, seus gemidos. E olha, eu moro num prédio, e eles moram em casas, nas ruas. Só que mesmo nós vivendo no quarto país mais extenso do mundo, ainda assim, vivemos espremidos tão próximos que sou obrigado a ouvir tudo o que eles têm para dizer. E provavelmente, estes vizinhos, não pensam que isso é uma violência, porque nós simplesmente normalizamos violências e agressões.
Não conseguimos pensar em alguma comunidade. No máximo, no máximo, nos engajamos com alguma categoria profissional, fazemos algumas greves, alguns protestos. Mas em geral, estamos esquecidos da nossa comunidade. Em nossas ações cotidianas, sejamos sinceros. Não nos importamos uns com os outros. Se nos importássemos, não seríamos tão violentos.
E assim vamos levando a vida. Normalizamos beber. A bebida é como se fosse o nosso remédio para suportar a violência. É a nossa tarja preta para que possamos nos embriagar e suportar o atraso de nossos amigos. E não respeitamos o horário nem quando vamos beber. Não dá para saber onde começou tudo, mas todos sofremos com os atrasos. E assim, festejamos com os amigos, vamos até tarde da noite, pois todos chegaram atrasados, todos. E nós vizinhos? Não conseguimos dormir, acabamos dormindo até mais tarde, numa vã tentativa de nos recuperar da noite anterior. Atrasamos nossos compromissos, atrasamos a vida dos outros. Mas tudo bem, no final do dia, bebemos aquela cerveja gelada. Escutamos nossos hinos. Tecemos críticas contra os políticos. Construímos a solução para o Brasil. Mas como bebemos demais, acordamos esquecendo de tudo, apenas com o objetivo de sobreviver a mais uma ressaca.
No trabalho já normalizamos tudo. Não tem gente. Não tem. Não tem sistema. Não tem. Não tem gestão. Não tem. A única coisa que existe bem no trabalho é o lucro. Não há satisfação dos clientes. Muito menos dos trabalhadores. Mas existe o lucro. Quando normalizamos acordar às 1h30 pensando no trabalho? Pensando nos colegas, pensando nas demandas? Quando normalizamos que isso é normal? Quando eu normalizei perder minhas noites de sono? Quando?
É estranho pensar como o trabalho sempre acabou comigo. Nunca foi sequer uma opção desistir do trabalho. Vejo outras gerações questionando propósito, pensando em tanta coisa, quanto pra mim, nunca foi uma opção. O mercado é caro no final do mês. Restaurantes são caros. Transporte é caro. Construir uma saúde é caro. Tudo é caro. Mas normalizamos... ou será que normalizaram para nós?
Nos acostumaram a ter metas impossíveis de serem alcançadas. Nos acostumaram a coisas absurdas, como o caso da gerente que teve o parto da criança dentro de uma agência. E é claro, também nos esquecemos do processo. Construímos resultado a todo custo. Nos fizeram aceitar sermos assediados. Nos entregaram a meta ontem para serem entregues ontem. Nos acostumaram a custo de quê?
Agradecemos ter um emprego. E se seu emprego te proporciona pagar um plano de saúde, então você é como se fosse um rei. Mas quando paramos para pensar, é tudo tão absurdo que não conseguimos nem estranhar. Todos estamos revoltados, com tanta raiva que só conseguimos explodir com nossa comunidade. Com aqueles que estão tão próximos de nós, que recebem também a nossa violência.
E tudo que falei, não é nenhuma causa. É tudo sintoma. Sintoma de tudo o que nos fazem viver. Queria eu poder apontar as causas, dizer onde existe a solução. Só sei que também nos acostumaram a esperar o Messias.


