#0055 Por que não aceitamos que não vamos salvar todas as pessoas?
ou: do que estamos fugindo?
Hieronymus Bosch – Ship of Fools (disponível em domínio público)
Outro dia, um amigo mais antenado que eu, me falou sobre uma sigla interessante: FOMO (Fear of Missing Out) que é: “medo de estar perdendo algo”, aquilo entrou na minha cabeça e ficou estacionado lá.
Até que hoje eu tive que me olhar no espelho e encarar uma falha. Numa das conversas filosóficas com minha esposa, ela me disse que admira que eu nunca estou satisfeito com a vida, sempre quando ela olha para mim, estou iniciando um novo projeto. Mas o seu olhar não era de julgamento, era de admiração. Queria eu ter esse olhar para mim mesmo.
Em uma de suas crônicas, Clarice Lispector relata que é como se fosse constrangedor (claro que as palavras dela são bem melhores que as minhas), escrever crônicas. É como se tirássemos nossa roupa e fôssemos completamente expostos numa sala de vidro. É desolador. Por que digo isso? Não é fácil vir aqui e escrever que cheguei a dever 150 mil reais para um banco. Como também não é fácil expor todas as minhas outras vulnerabilidades. Não é fácil dizer que desisti de todos os meus sonhos. Mas é recompensador quando recebo uma mensagem que diz que o texto dialogou com o que a leitora sentiu naquele momento. Não há como descrever o que sinto quando isso acontece.
E sobre você procurar encaixar tudo aquilo que você sente, vive, vê, dentro do significado limitado das palavras, é um exercício que te faz se conhecer. É como se você fosse o autor do manual que diz como deve ser a sua própria vida. E isso está completamente ligado ao ato de desnudar-se. É inefável quando você descobre que para olhar para si não é necessário nada.
Isso é completamente diferente do mundo consumista que vivemos. Não é como vender algo e ter um lucro. Não é. É diferente. E não é sobre quantidade. É como se nesse momento eu soubesse que a existência humana é completa. Parece que vejo o infinito, neste breve instante. Por que então não continuar fazendo isso, e somente isso, se isso é tudo que eu sempre quis e sonhei?
Mas então vem a realidade. Nós não vivemos num mundo justo. A perfeição não existe no mundo material, buscamos mais justiça, mas dentro de nossas próprias concepções sobre o que é o certo, e como nós não podemos olhar para o mundo com o olhar dos 8 bilhões de pessoas que existem, não poderemos, jamais, saber se o que nós acreditamos é realmente aquilo que é o melhor para nós, para o planeta ou para a humanidade, por mais que achamos que seja. Só que, ainda assim, desejamos fazer a diferença, ser lembrado, nos tornamos imortais? Salvar as pessoas. Mesmo que elas nunca tenham pedido para serem salvas.
Nós temos algo que parece que nos move para isso, para querer nos sentir especiais, e uma das maneiras de nos sentirmos especiais é quando trocamos ideia com algum outro ser humano. Nós trocamos experiências, e todas elas são necessárias para que possamos nos sentir humanos. E claro, isso tem relação com ajudar, mas não apenas isso, é sobre nós contribuirmos com o todo, é sobre entregarmos o que temos de melhor. Não sei muito sobre isso, o que sei é o que sinto, é a forma como percebo o mundo.
E por mais que nós saibamos que nós não podemos salvar todas as pessoas do mundo, desejamos ver as pessoas que amamos bem. Não sejamos hipócritas, nós não temos condição nenhuma de nos importarmos com todos os humanos da terra. Nós só nos importamos com quem amamos.
Quando não estamos nesse equilíbrio, entra em nosso peito aquela sensação de insatisfação com a vida, como se nada do que fizéssemos fosse bom o suficiente. E claro que nós também somos bombardeados com as novas tecnologias. Quantas informações chegam em contato conosco o tempo inteiro? É tanta novidade. E é óbvio que nós estamos deixando de fazer alguma coisa que poderia mudar o jogo, mas que jogo é esse, afinal?
Não é novidade para ninguém que nós como espécie confundimos o humano com o consumo. Só é humano quem consome. Mas não é qualquer consumo, não. Só vale o consumo mediado por uma troca dessa invenção doida humana chamada dinheiro. Talvez eu chute que, uma parte do medo da insatisfação que eu sinto, seja ocasionada pelo fato de não existir essa troca financeira, que acaba me dando uma sensação que não é válida, que aquilo que gasto o meu melhor tempo, minha melhor energia para tornar um conteúdo consumível não é válido. E em parte isso também gera uma pequena revolta. Vamos refletir? Do meu círculo não conheço uma única pessoa que não tenha disposição de pagar um streaming, mas não conheço uma sequer que tenha assinatura de conteúdos de artistas nacionais. Obviamente isso não é uma culpa exclusivamente das pessoas, nós acabamos sendo reativos ao mundo, e seguimos. Mudar o sistema vigente exige uma energia absurda de nós. Mas isso é frustrante. Eu não encaro isso como uma coisa sistêmica, o que o coração sente é que o meu produto não é bom, e isso entra diretamente no meu ser, como se o fato do meu conteúdo não ser bom, gerasse a consequência de que a minha existência também não é boa. Pois o que eu escrevo, sou eu.
E se o que escrevo sou eu, e isso não é suficiente para ser digno de ser consumido pelas regras do sistema vigente, então penso que o problema também sou eu. Eu posso falar (para mim mesmo) e dizer o contrário, mas essas são as regras do jogos, e me impactam. Além do mais, nós estamos viciados em falar A e fazer B.
Então eu preciso olhar para mim, e tentar me conduzir num processo diferente, retirar o ser consumível da minha própria validação. O que também funciona. Mas é muito mais difícil manter a esperança quando não vemos nenhum resultado. É como tentar imaginar uma cor que não existe. Em certo grau, é impossível. Neste ponto existe a teimosinha do paranormal. Não é normal vir aqui e escrever. Se eu escrevo e publico eu desejo ser lido. Mas quando tudo isso não acontece é preciso me lembrar, que isso não é tudo.
Eu poderia tentar ir para um outro caminho. Um caminho, talvez, apenas talvez mais fácil. Que seria um caminho de escrever o que as pessoas já desejam ler. Como se fosse uma IA. E pautar o meu reconhecimento no que o algoritmo dissesse o que é válido. Tentar resolver algum problema real do mundo, e receber uma recompensa financeira - mas já não é isso que faço trabalhando para o Estado brasileiro? Dizer que sou contra o sistema e fazer exatamente tudo o que o sistema espera que eu faça. Poderia tentar seguir por esse caminho, mas eu também não teria nenhuma garantia de que isso daria certo. Que eu não seria mais um no meio da multidão gritando a mesma coisa que toda a multidão, sem voz, em silêncio, em meio ao barulho.
São caminhos. E o que define qual caminho que eu escolho, é simplesmente aquilo que eu escolho. Mas não é apenas escolher um caminho. É também caminhar pelo caminho. Sentir as pedras que entram no sapato. Lamentar-se. Olhar para a outra multidão seguindo um outro caminho e se questionando se estou no caminho certo. Nós então queremos estar em todos os caminhos. Não nos satisfazemos com caminhar.
Nós queremos o mundo.
Vida simples? Não. Cada um de nós tem um estômago infinito e precisaria de infinitas terras para saciar essa fome. Queria poder escrever algo diferente, dizer que de alguma forma eu encontrei a resposta para a angústia do mundo. Dizer que sim, siga meu método, por apenas 9 mil reais, e supere essa dor. Não, eu não sou o cara que abriu a trilha e cortou o mato. Eu estou caminhando ao seu lado.
Escrever isso não é fácil. Mas é a realidade. É a vida. Mesmo que eu diga que sou diferente, que não ligo para o financeiro, que me recuso a acreditar no valor de um ser humano, há um valor monetário. O animal que há dentro de mim se move com base nesses interesses. Bem, na teoria é perfeito, eu não credito o valor do humano ao consumo, ao dinheiro. E na prática? A tal da prática faz com que eu retire do meu próprio valor, como se eu não fosse digno, não merecesse, fosse inútil por completo, sinto-me inútil. Um ser que prepara a máquina para substituí-lo, e o único espaço que tenho para ser diferente, é o espaço em que há ausência de reconhecimento. Se continuo a escrever esse texto, é porque sem ele, não tenho nem forças para levantar da cama.
Você também deve ter os seus monstros que você não encara. E sabe o que o sistema desenvolve para que você não sinta culpa por não encarar? FOMO. É genial o conceito, e também o que fazem com a gente, essa ansiedade artificial a qual todos nós sentimos, e nos faz, pasmem, produzir, não é? Ela entra como uma forma de dizer que as coisas só não deram certo porque você ainda não encontrou o dispositivo, o segredo, a ideologia, o que quer que seja para que tudo fosse diferente. Dentro de você há o vazio infinito, o vazio que a FOMO preenche. Que o feed infinito preenche. Que o dinheiro infinito preenche. Mas, nada disso que falei é real, então quanto mais você se preenche com os vazios, mais dor você sente.
Preciso fazer um disclaimer aqui, cada texto é como se tivesse uma cola dentro dele que vai sendo construída. Só que às vezes, a vida não nos permite que consigamos trazer aquilo que precisa no momento que precisa. E o último fragmento desse texto, eu perdi. Não sei o que eu iria escrever. Mas a minha ideia com esse texto, era dizer que nós estamos sendo conduzidos a acreditar que o consumo é o Deus master que rege a nossa existência. E com isso nos distanciamos cada vez mais daquilo que não pode ser pago. Toda a nossa validação é posta para o consumo. E quanto mais nossa espécie consome coisas, vai dando vida a elas, como se fossem humanas, sem serem. E mais próximos chegamos da destruição do planeta. Mas que diferença faz? Não é só mais um planeta num universo infinito para a escala humana? Não parece que vivemos uma vida vazia? Trabalhamos para comprar coisas. Para então acharmos que temos uma validação de outras pessoas. Mas, as pessoas que nós conseguimos conhecer e amar, nós não ligamos para o que elas consomem, e desejamos apenas viver com elas, ficar próximas delas, trocar experiências com elas, e não consumir coisas com elas. Esse era o ponto que eu deveria ter algo fudido que explodiria a sua cabeça. Mas eu não tenho. Eu só sei que tudo o que você acha que te fará feliz, não fará. E que tudo o que você precisa é viver próximo o suficiente das pessoas que você ama, para abraçá-las e beijá-las. Em uma vida simples, isso é tudo que eu tenho.


