#0054 Finalmente entendi porque as pessoas não gostam de reforma
ou: você precisa parar de buscar a perfeição e sentir a beleza da imperfeição
Os Raspadores de Assoalho (The Floor Scrapers)
Pintura de Gustave Caillebotte, 1875 disponível no domínio público
Eu e minha esposa morávamos num apartamento que um dia foi de um homem solteiro. Imagine um apartamento que tem 55 metros quadrados e uma sauna?
Nós, como boa parte de todos os brasileiros, sonhávamos um dia com a nossa casa própria, com a nossa cara. Contratamos então uma arquiteta, e preciso dizer, foi “A arquiteta”, ela fez um projeto pensado, nos mínimos detalhes, para comportar todas as nossas necessidades.
Só que esse sonho foi no ano de 2023, e na época, abortamos o sonho da reforma, por falta de $. Além disso, em 2023, podemos dizer que tínhamos pavor da possibilidade de colocar uma criança nesse mundo. E agora, não é que estamos abertos a possibilidade? Confesso que ainda sinto medo, me sinto assustado, sinto que talvez devesse seguir as coisas como eu já conheço, ao mesmo tempo, não me parece que isso é certo, que o certo seria ter uma criança? Quero talvez manter a vida como ela é, criando uma falsa sensação de segurança? E “A arquiteta” fez o seu trabalho, adaptou, retirou do segundo quarto o escritório e transformou no quarto do bebê, embora, por hora, seja apenas o quarto dos gatos.
Além disso, numa linda viagem que fizemos para a Europa, no início dessas crônicas, você pode ler mais, são as crônicas de 7 a 12. Achei peculiar que todos os lares que visitamos (lares e não hospedagem de Airbnb), tinham uma lava-louças. Então me questionei: por que mesmo nós não tínhamos? Por quê? Dizem as sábias línguas que é de nossa herança escravocrata, em que os lares sempre tinham uma mulher negra para lavar as louças. “A arquiteta” adaptou o nosso projeto, agora teríamos lugar para ela, e claro uma lava-louças!
Estamos também numa nostálgica aventura de rever uma novela que adorei em minha infância, e é tão esquisito olhar o que aconteceu naquela época e agora para nós é considerado um completo absurdo. A novela é “O beijo do vampiro”, e no início dos episódios aparece um aviso que a novela reproduz os costumes da época. Na época, o único personagem negro era a empregada, que trabalhava no lar 24 horas por dia. Desse jeito é fácil não ter a necessidade de ter uma lava-louças se você sempre tem uma mulher disponível 24 horas por dia para lavar as suas louças. Então essa é a parte que mais me choca, na novela era um lar rico que mantinha uma empregada, mas será que isso acontecia apenas nos lares ricos? O apartamento que reformamos, com apenas 55 metros quadrados, e feito como política pública habitacional no final da ditadura militar, no programa de financiamento da casa própria para a classe média, tinha um quarto e um banheiro para empregada, um apartamento de 55 metros quadrados com um quarto de empregada, claro que não era um quarto, com ventilação adequada, nada disso, era apenas um cantinho que caberia apenas uma cama, e um banheiro para uma pessoa viver espremida. Então, uma empregada, que na maioria desses lares de classe média, eram crianças vindas do nordeste para tentar estudar, tentar ter uma vida melhor. Essa era a realidade para não se criar uma cultura de uma lava-louças no Brasil.
Voltemos à reforma. Depois dos ajustes, começamos então o longo processo de contratar o empreiteiro para fazer a nossa obra. Foram muitos e muitos vídeos no Youtube, nos prevenindo de todos os golpes que poderíamos receber. Sim, escrever isso é de uma violência surreal, você tem que se prevenir em não ser extorquido ao contratar um simples serviço, como uma reforma de um apartamento.
Felizmente, contratamos o empreiteiro, vidraceiro, marceneiro, e o cara das portas. Nenhum nos deu um golpe, se bem que o cara das portas parou de me responder, e não instalou uma porta, e me cobrou quase mil reais para trocar uma fechadura.
Começamos então pelos vidros, afinal, trocamos todas as janelas. Quando eu olho para a janela da sala, a dor no coração, o vidro ficou torto, o vidro ficou torto. Como alguém que só faz o corte e instala vidros faz um vidro torto? Mas quando eu falo isso, a minha fala de cliente injustiçado esconde uma pequena violência de eu achar que meu trabalho intelectual é melhor que o trabalho do vidraceiro. Será que seria? Será que se eu tivesse as mesmas condições físicas e emocionais que ele eu teria feito um trabalho melhor ou pior? Eu não era pró-trabalhadores? Não trouxe até uma das primeiras obras de artes que representam os trabalhadores trabalhando? Mas ser pró-trabalhadores é só quando eles não estão prestando serviço para mim? Os vidros foram instalados, depois da cortina ficaram lindos, não entra água, e temos uma janela anti-ruído que veda só um pouco, mas veda o som. Então no final, considero um excelente trabalho, apesar, apesar da imperfeição.*
Ah, o marceneiro! Precisamos ligar para ele e ameaçá-lo, dizendo que não indicaríamos ele para nenhum amigo! Nossa! Como somos ruins e ameaçadores! Bem, tudo o quê pedíamos a ele, era motivo de choro, juro, era um ser humano de 30 anos que falava com uma voz de choro como se fosse uma criança de cinco anos sendo contrariada. Ele nos dizia que daria muito trabalho. Muito trabalho! O trabalho que contratamos ele para fazer. A nossa “A arquiteta” disse que não deveríamos baixar a cabeça, o que estávamos pedindo não era nada demais. Era apenas: madeiras não quebradas, led, e uma instalação reta.
Uma instalação reta.
Eles erraram no espelho, o espelho ficou 0,5 cm torto, e agora todas as vezes que vou no banheiro, vejo o teto caindo, mas não é que o teto esteja caindo, é que o armário ficou indo para cima e dá a impressão que o gesso é torto, embora o gesso não esteja torto. Fizeram um buraco enorme nas paredes que vamos precisar pagar mais uma mão de tinta, além disso, ainda estragaram o interfone, que vou precisar contratar uma outra mão de obra especializada para arrumar. Mas, o trabalho foi entregue. Se não caímos em nenhum golpe, já é motivo de se comemorar. Apesar do choro, ele entregou tudo o que pedimos, tudo.
Finalmente chegamos ao empreiteiro, que na hora do fechamento do negócio, caramba, era como a fase mais bela do namoro, meu Deus, como era prestativo, tirava todas as dúvidas, mandava para nós os vídeos, de obras maravilhosas que ele havia entregado. Vocês não estão entendendo o nível das obras, eram obras em embaixadas, coisa de primeiro mundo mesmo. Para nós, eu e minha esposa, que vivemos a vida inteira em periferias, e tivemos um pouco de ascensão social por meio da aprovação em concurso público e com muito trabalho, aquilo era muito mais de tudo aquilo que um dia, um dia havíamos sonhado. Claro que não pesquisamos só com ele, pesquisamos com outros empreiteiros também, descartamos o mais barato, e com um prazo irreal, enquanto a maioria dizia que demoraria 60 dias úteis, o mais barato, disse que entregaria com 30 dias. Só sorrimos. Era golpe. Felizmente não caímos.
Mas serviu para negociar com o empreiteiro que mais gostamos. Fiz o meu dever de casa. Pesquisei o CPF do empreiteiro, além do CNPJ da empresa para verificar se eles não respondiam nenhum processo judicial. Nada. Empresa limpíssima. Nenhuma reclamação. Eu deveria ter desconfiado de algo. Como já diziam os sábios, nem mesmo Jesus agradou a todos, então ninguém agradaria. Se não existe reclamação é porque as reclamações foram silenciadas ou a empresa é nova demais para ter tido problemas, logo, talvez, eu fosse sorteado para ter os problemas e fazer as minhas reclamações.
E claro, que tivemos o problema do presente do Natal. Ele nos disse, apenas de acordo de boca, que entregaria a obra antes do Natal. Vocês devem imaginar que o papai noel não sorriu para nós no Natal. Nem no ano novo. Nem em Janeiro. Nem no prazo do contrato. Nem uma semana depois do término do contrato. E vocês imaginam como nós ficamos? Você está fora de sua casa, longe de seus animais de estimação, longe de sua rotina, e para completar o bingo, ainda estava no mês de trabalho mais pesado da minha vida. A relação com meu pai começou a ser possivelmente afetada, a paciência já não existia mais, e o cansaço, ele só aumentava.
Não aguentamos mais, e fizemos o máximo de pressão possível com todo mundo para finalmente terminar essa obra. Não terminou. Mas decidimos que nos mudaríamos mesmo que a obra não tivesse terminado. E nós víamos os problemas, o acabamento do banheiro ficou horrível. Não tiveram cuidado com o manuseio dos porcelanatos, e estragaram algumas peças, é uma dor no coração, porque você precisará ficar com aquilo, ou vai precisar jogar aquilo fora, produzir mais lixo, para substituir. É uma decisão que você perderá em qualquer que seja os sentidos. Mas é uma decisão que você precisa tomar. E durante uma obra, o que você mais fará é tomar decisões, e mais decisões. Decidir desde a tomada, até o lugar das luzes, quais luzes, quais tons, o piso, é tanta coisa que é enlouquecedor, e por mais que você contrate profissionais excelentes, como foi o nosso caso, quando contratamos “A arquiteta”, ainda assim, ela reduzia as opções da decisão que precisaríamos tomar, mas precisávamos tomar decisões, e algumas saem errado. Por exemplo, o meu escritório ficou na sala para podermos ter um quarto do bebê. Então, eu decidi que a cortina seria parcial na janela, decisão burra, e a “A arquiteta” falou: você tem certeza? Dará reflexo. Bem, a cortina terá que ser refeita, e vamos precisar cortar o gesso. Prejuízo, porque é quase impossível trabalhar com o reflexo da janela. Mas não aguentamos mais a obra.
Nós nos mudamos com o que tínhamos.
Foi alegria. A realização de um sonho, não é? É estranho dizer que isso é um sonho, apesar de ter sido fruto do trabalho, que gerou o dinheiro para poder fazer o pagamento do trabalho dos outros profissionais para executar a obra, não foi diretamente o nosso suor, muito menos as nossas mãos que fizeram ser possível que o apartamento se tornasse uma obra realizada. Comemoramos. Mas na primeira semana que estávamos tivemos duas grandes decepções.
O nível do banheiro não estava adequado, então quando jogamos a água, a água escorre para o lado de fora do banheiro. E tínhamos novos vizinhos. Vizinhos estes que gostavam de ficar bebendo, gritando, no caraoquê até as 4 horas da manhã. Até às 4 horas da manhã. Esse é o horário que eu gosto de levantar, passar meu café, sentir o dia amanhecendo, sentir um pouco da vida, e eles ainda no dia anterior festejando, gritando, atrapalhando o sossego da vizinhança. E olha, que nunca pensei que me tornaria esse tipo de pessoa, que reclama do barulho, mas quando se tem problemas para dormir, como é o meu caso, é quase impossível conseguir não se importar com o barulho. O barulho te deixa louco. As pessoas precisam do álcool para se divertir, porque um ser humano sóbrio não suporta barulho. É estressante. É enlouquecedor.
O barulho me impede de escrever. Eu sei que não é desculpa dizer que não escrevi, que atrasei, por causa de obra e barulho. E isso não tem nada a ver com sucesso, eu sei. E mais que ninguém eu sei o quanto isso faz mal para mim. Quando não consigo seguir essa rotina, é como se visse o líquido da vontade de existir se escorrer pelas minhas mãos. Mas foi não saber lidar com essa frustração que me fez não escrever.
E a vida é isso. Só que não é fácil nós aceitarmos isso. Nós idealizamos tudo. Absolutamente tudo. Então quando os defeitos aparecem sofremos. Algumas pessoas se culpam. Outras culpam o cônjuge. Outras os trabalhadores. Porque não queremos aceitar que a imperfeição existe. Vivemos num mundo em que há defeitos, erros, e problemas a serem resolvidos. Não aceitamos que melhoremos. Por mais imperfeita que esteja a nossa reforma. Foi a nossa reforma. Foram nossas decisões. E não há nenhuma dúvida que vivemos num apartamento melhor do que ele era antes. Espero que possamos aceitar que melhoramos. Podemos até nos arriscar a dizer que é um outro apartamento. Mudamos a planta dele. Para ser aquilo que é funcional para nós dois. E conseguimos otimizar o tempo de tudo o que fazemos.
A vida não é perfeita.




Meu deus do céu. Eu estava justamente naquele auge da roda da vida onde me sinto um adulto funcional e sem medo da vida adulta. Agora, estou apavorada. Nunca na minha vida quero passar por isso.
Você é um herói urbano, a presença da resiliência entre nós. Tem ideia do que venceu? 20 ataques de pânico só de ler isso. Uau, parabéns de verdade, não sei se pareceu irônico, mas não é o caso.
E parabéns pela crônica também e pela decisão de ter filhos. Quando crescer quero 1% da sua coragem.